sábado, 26 de abril de 2008

Dom

Em nossos últimos encontros falamos sobre os textos Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens(1910) e Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (1912), ambos de Freud.

Ocorreu-me a lembrança, nesta semana, do filme Dom, que conta a história de Bento, carioca brasileiro que havia sido nomeado por seus pais em homenagem ao personagem homônimo de Dom Casmurro.

O filme se desenvolve em torno do relacionamento de Bento com Ana, uma paixão de infância que ele reencontra anos depois. Ana, mulher bonita e inteligente, é dançarina e quer ser atriz. O reencontro dos dois se dá por acaso. Eles haviam passado longos anos sem se verem depois que Bento se mudou com a família para São Paulo, ainda criança. Após o reencontro, o contato entre eles se torna muito intenso e ambos terminam os namoros que vinham vivendo até ali.

Algumas marcas do relacionamento Bento-Ana fizeram uma ponte aos textos freudianos, a saber:
  • quando decidem se casar, Bento faz a Ana uma espécie de promessa, "fazê-la a mulher mais feliz do mundo". Ela muda com ele para São Paulo e abre mão de sua vida para acompanhá-lo. Ele não deixa que lhe falte nada e, no início, o casamento é repleto de felicidade para ambos.
  • com o tempo, Ana passa a sentir falta de ter vida própria, de retomar seu projeto de dançarina e atriz. Bento se opõe continuamente. Eles têm um filho e Bento não quer que Ana volte a trabalhar. Não suporta vê-la desejar. Simplesmente não entende o que pode lhe faltar que a motive a buscar um trabalho, já que "ele lhe dá tudo". Racionaliza recorrendo à importância de a mãe estar próxima e cuidar de seu filho. Ana avança, hesitante.
  • Miguel, amigo de ambos e padrinho de seu filho, é dono de uma agência de publicidade e, diante do crescente contato com Ana, incentiva-a a buscar aquilo que deseja e retomar sua vida profissional. Uma oportunidade surge e Miguel a convida para atuar em um filme que sua agência iria gravar. A aproximação de Ana e Miguel, aliada ao incentivo e suporte que ele lhe oferece, despertam o ciúmes e a desconfiança de Bento que desenvolve uma forte obsessão: a de que Ana e Miguel estão tendo ou tiveram um caso e que, talvez, o filho não seja dele mas sim de Miguel.

Notam-se no comportamente de Bento a dificuldade típica do neurótico obsessivo diante de sua mulher desejante e seu interesse em tê-la em casa como um belo troféu, sem vida própria, distante dos olhos de todos os outros homens. Como um "belo carro esporte", nas palavras de Freud.

Além disso, a existência para o obsessivo de uma terceira pessoa na relação, a presença do fantasma da traição e a obsessão que consome grandes quantidades de energia psíquica, também descritos por Freud, ganham mais uma encarnação nesta ficção de Moacyr Góes.

Bento, que havia crescido ouvindo a causa de sua nomeação referente ao personagem de Dom Casmurro, culmina então por reviver a história do mesmo personagem.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Caso Isabella: todo mundo desconfia de si mesmo

Jorge Forbes*

Quem matou Isabella? Essa pergunta atravessou o país, na semana passada, em todas as casas, em todos os cantos. Quem pode matar uma menina linda de cinco anos, sorridente, gaiata, livre no corpo e no olhar que olha a câmera de frente? Quem?

Matar uma menina como Isabella é ferir a última das garantias de nossa vida social. Há pouco tempo ninguém roubava uma igreja, o ladrão teria medo da ira dos céus; também não se batia carteira de velhinho nem bolsa de velhinha; seria ferir o código da malandragem; não se batia em mulher. Imagine! Isso passou, a sociedade foi ficando cada vez mais acuada, amedrontada, escondida em carros esfumaçados e blindados, fechada em prédios cheios de alarmes, como o de Isabella. Oh, "London, London", que triste canção. Tanta proteção para nada, ela morreu.

Quando um crime é cometido por uma razão aparente: fome, vingança, sobrevivência, de certa forma se compreende, embora não se aceite nem se dê razão. Crimes desse tipo são bem classificados. Neles, a diferença do criminoso com o homem comum e sua situação de vida são, em grande parte, patentes.

Agora, quando a situação de um crime reproduz o cotidiano, todo mundo passa a desconfiar de si mesmo.

Poderia ter acontecido com minha filha, ou, pior, será que eu poderia cometer uma atrocidade dessas, eu que não tenho nenhuma história pregressa que me leve a desconfiar de mim mesmo? Pode sim, um criminoso não é criminoso até que cometa um crime, caso contrário, vamos começar a inventar disposições genéticas perigosíssimas e construir berçários-cadeia. 'Vá buscar o bebê da cela três para mamar.'

No caso de Isabella, ainda tem o detalhe da madrasta. Quantas mulheres recém-divorciadas encheram-se de razão nesses dias para proibir o ex-marido de passar o fim de semana com o filho e a nova namorada?

Ninguém, fantasiosamente, gosta de madrasta nem de sogra. Ninguém gosta de intermediários de amor, de algo ou de alguém que lembre que entre o amante e a amada existe uma barreira. Pobres madrastas, pobres sogras. Elas levam a culpa de algo que está na essência do humano: a falta de garantia dos nossos laços afetivos.

A cena da família unida no supermercado de sábado, tranqüila, carinhosa, de chinelão, fazendo do carrinho de compras uma Ferrari para as crianças, não poderia servir de melhor ilustração para um cartão-postal de felicidade. Qual o quê. Poucas horas depois, o trágico, o sem solução. Voltamos à cena, uma, duas, várias vezes; ela bateu o recorde de audiência dos sites. Tentamos detectar o espectro da desgraça rondando aquele passeio na escada rolante, buscamos avidamente algum sinal que nos proteja, que não faça com que fiquemos todos paranóicos em cada momento feliz.

Mal, oh mal, onde está você? Será que você está na ausência das declarações do pai? Ou será que se disfarça na beleza jovem da madrasta sem lágrimas; ou não, vai ver que você se intromete na marreta do pedreiro, aquele Pedro que faz casa para o outro bem morar, enquanto ele mora na marmita, sim, vai ver que foi ele.

Cada um faz uma hipótese, sempre baseada na sua visão de mundo e na maneira pela qual reagiria em uma situação dessas. Rapidamente os falastrões investigadores das razões alheias se dão conta de que as emoções humanas são bem mais complexas que o bom senso. Pode um pai não chorar no momento seguinte da morte de sua filha? Claro que pode, quem nunca teve um branco na vida, um impacto tão grande que o mundo vira paisagem branca? O não-choro, por si só, não incrimina o pai, como, ao contrário, o choro de Suzane Richthofen, no enterro de seus pais, não a inocentava, como não a inocentou.

Freud aconselhava a, se invocarmos os demônios, que ao menos conversemos com eles, antes de despachá-los de volta. Os demônios estão aí; como é de praxe, eles aparecem na morte de um anjo. Daqui a pouco vamos mandá-los de volta às suas profundezas, as quais gostamos de ignorar. O momento da verdade dura é agora, que melhor será se durar mais que um só momento. Vamos despachar os demônios assim que ficar confirmado, jurado e sacramentado o nome do assassino. Todos respirarão aliviados ao saber. Ufa! Não fui eu. Foi ele. Só podia ter sido ele, como eu não pude entender isso antes?

E a festa voltará. Não há garantia para o frágil laço social humano, dizia. Bichos são sempre iguais. Homens nem sempre são homens, não há um piloto automático de humanidade. Esse é o motivo de viver no princípio de responsabilidade que não ausenta ninguém da existência coletiva. Somos responsáveis por Isabella? Sim, é o que isso quer dizer. Uma responsabilidade jurídica condenará o criminoso, mas o princípio ético da responsabilidade humana, diferente da estritamente penal, obrigará todos nós a prosseguirmos com esta marca em nossas vidas. Seu nome? Isabella, uma 'isola bella', uma ilha bela.

*Jorge Forbes, 56, psicanalista, é presidente do Ipla (Instituto da Psicanálise Lacaniana) e diretor da Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Bem-vindo ao nosso blog!

O Rato dos Homens é um blog criado por um grupo de estudos em psicanálise do IEPSI, com o objetivo de publicar suas produções sobre o tema Neurose Obsessiva.

Que o blog possa tornar nosso caminho ainda mais enriquecedor!