segunda-feira, 23 de junho de 2008

Seminário: “Estruturas clínicas - neurose obsessiva”
Ata de 19/10/2007
Por Rui Barbosa Júnior

Quando me procurou, Fábio já fizera análise por algum tempo. Na primeira sessão, afirmou ser uma pessoa muito dominadora. Sua maneira de se apresentar, cordial, educada e simpática, em nada revelava a tendência que anunciara. Paradoxalmente, às vezes tinha acessos de cólera em casa, por motivos banais.

Era gerente da filial de uma grande empresa. Como tal, tinha de tomar decisões relativas aos empregados, ação que executava sem grandes problemas, porque seguia fielmente a lei. Dizia-se justo nesses casos. Explicava: “No serviço que faço, as normas são claras, e as situações, repetitivas, então não é preciso pensar muito para resolver”. Empenhava-se por me demonstrar sua consideração para com os subordinados.

Gabava-se de sua simplicidade ao relatar comentários ouvidos a seu respeito, tais como: “O Dr. Fábio nem parece ser o chefe, pois conversa com todos; até conta piadas”. Um dia ele me disse: “Já reparei que, quando estou com outras pessoas, só faço aquilo que sei fazer muito bem; se tiver de competir, então eu não entro”. Usava roupas simples – até surradas, diria, - se considerarmos seu poder aquisitivo, pois detestava comprar roupas novas. Às vezes mostrava-se arrependido de ter adquirido um apartamento tão caro.

Numa viagem a serviço, envolveu-se com uma colega de outra filial e teve relações sexuais com ela uma única vez, de forma intempestiva. Apaixonou-se. Esse fato lhe acarretou grande dose de culpa, segundo afirmava. Em outros momentos, falava do assunto como se houvesse conquistado um troféu; começara a namorar a esposa quando muito jovem e até então só se relacionara com ela. No retorno da viagem, fez exames de sangue para verificar se estava contaminado por alguma doença.

Muito inteligente, discorria sobre filosofia e religião, temas que resolviam suas pendências nas noites de insônia. Dava-se o diagnóstico de “depressão”.

? ? ?

Não sei como a história de Fábio termina, pois ele já não é meu paciente há muito tempo. A lembrança de suas sessões, entretanto, remete ao que temos lido sobre a neurose obsessiva.

Se uma vez já se disse que a histérica é “bipolar”, em certo sentido o neurótico obsessivo também o é. Freud nos fala dos grupos de sintoma de tendências opostas: proibições, precauções e expiação, de um lado – satisfações substitutivas do outro. Seriam exemplos disso o “caso” fora do casamento versus a culpa e os exames posteriores? Teriam tais exames caráter anulatório?

Presente está a transgressão da Lei, em nome do controle onipresente do objeto – troféu conquistado, como se vê pelo tom de sua fala ao narrar a escapadela.

Mencionarei como formação reativa a cordialidade, às vezes excessiva, defesa contra a agressividade subjacente.

Fábio não competia, pois não podia perder. A perda conduziria a uma falha em sua imagem narcísica. Os comentários dos subordinados sobre sua simplicidade me fizeram lembrar de uma piadinha narrada em um texto sobre narcisismo: “O sujeito era tão humilde, tão humilde, que se gabava de ser o homem mais humilde do mundo”.

Onipotente, o pensamento de Fábio se valia de fundamentos religiosos e filosóficos.

A “depressão” possivelmente sinalizava a angústia diante do conflito entre o isso e o supereu despótico, que tentava mediar racionalmente. Sem contar os inevitáveis golpes narcísicos que a vida lhe proporcionava ...

Vale citar trecho do artigo A neurose obsessiva, de Lúcia Alves Mees[1]:

“Devido à regressão, o superego é severo, e a angústia se deve à hostilidade do mesmo. O eu teme o superego pelo castigo de castração que ele carrega. Pois, da mesma forma que o pai se tornou despersonalizado sob a forma do superego, o medo da castração se transformou em angústia social ou moral indefinida (Freud, 1926) (...) Para Lacan, o temor, do qual a angústia é sinal, é também o da castração, mas especificamente no que esta se relaciona com o desejo do Outro: ‘a função angustiante do desejo do Outro está ligada ao fato de que não se sabe qual objeto a se é para este desejo’.”.

Pergunto-me se não comprar roupas seria um sinal da avareza própria do “caráter anal”. Arrepender-se de ter gasto demais na compra do apartamento não apontaria no mesmo sentido? Ou decorreria esse fato de haver obtido o domínio do gozo, como enfatiza Joel Dor?

Com relação à regra fundamental, nada menos (ou mais?) fundamental. Para ele, explicar era essencial. Tinha resposta pra tudo. A partir do seu primeiro dito: racional (“Sou dominador” – eu confesso, eu cedo...), mas ambivalente: “Me aguarde”.

[1] Publicado na Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, nº 17, 1999.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Por Luigi

Amélie foi marcada pelo distanciamento desde muito cedo. Seu pai, um ex-médico militar, jamais a tocava ou abraçava, exceto quando realizava os exames médicos de rotina. A emoção era tanta que o coração de Amélie disparava sempre que ele a auscultava, o que o levou à conclusão de que ela tinha mesmo um problema de coração.

Longe da escola em decorrência disso, teve sua mãe como sua professora. Era uma mulher rígida, que odiava ser tocada por uma pessoa não conhecida, como por exemplo ao fazer compras na feira. Tinha grande prazer em esvaziar sua bolsa, limpá-la cuidadosamente, e em seguida recolocar item a item dentro dela.

Seu pai também tinha hábitos curiosos: incomodava-se com a sensação de seu calção de banho grudado ao corpo após sair da piscina; constrangia-se fortemente ao utilizar o mictório ao lado de algum outro já ocupado; e adorava, todos os fins de semana, esvaziar sua caixa de ferramentas, limpá-la, cuidadosamente limpar todas as ferramentas e finalmente reorganizá-las na caixa.

Amélie passava a maior parte do tempo brincando sozinha e fantasiando sobre eventos da vizinhança, como imaginar que uma vizinha, que estava em coma, estaria de fato dormindo o sono de toda a vida para poder acordar em seguida e não precisar mais dormir. Um dia ganhou de presente de sua mãe uma câmera fotográfica, em troca de um peixe que havia sido jogado no rio porque a mãe não mais suportava seu desespero frente às tendências suicidas do peixe.

Com a câmera, passeou pela vizinhança retratando o que estivesse ao alcance. Dias depois, ao presenciar uma colisão de dois automóveis com a câmera em mãos, Amélie escutou de um vizinho: "viu, menina, o que fez a sua câmera?". Aterrorizada pela idéia de que cada foto que tirou tivesse causado uma catástrofe, Amélie se recolheu em casa, consumida pela culpa. Passou horas diante dos telejornais, acompanhando desgraças pelo mundo afora: incêndios, guerras, mais acidentes. Tudo culpa sua. Estava com apenas seis anos. Depois de descobrir que sua câmera não era a causadora de tragédias, resolve se vingar do vizinho, o que fazia sentada no telhado desconectando sua antena de TV durante os jogos de futebol.

Em uma visita à igreja com sua mãe, Amélie presenciou uma tragédia. Sua mãe foi atingida por uma suicida que saltara da torre da igreja no momento em que saiam de lá, de mãos dadas, e faleceu. Distante agora de sua mãe e na companhia de seu pai em luto infindável, restou-lhe apenas esperar crescer para finalmente seguir sua vida sozinha.

Já na vida adulta, aos vinte e dois anos, Amélie trabalha em um café como garçonete e visita o pai regularmente. Aposentado, ele não vive muito: nunca viaja, cuida da casa e continua vinculado à mãe. Auto-centrado, em suas conversas com Amélie ele não a escuta. As perguntas que ela faz em um diálogo corriqueiro têm o silêncio ou outro assunto do interesse dele como resposta.

Amélie havia tido apenas dois namorados, e suas experiências não haviam sido o que se pudesse descrever como satisfatórias. Cuida da vida de todos, e essa é sua maneira de levar a vida. Fantasia que é uma justiceira, uma espécie de Zorro feminino, ou uma mulher muito boa, que seria reconhecida ao morrer por sua bondade e doação aos mais necessitados. Entra na vida dos outros, vez ou outra, com grande obstinação e criatividade, como indicam os exemplos a seguir:
  • encontrou certa vez uma caixa de pequenos brinquedos escondida. Havia sido deixada lá há anos por um antigo morador, cujo sobrenome ela consegue descobrir. Em seguida, percorre a cidade buscando falar com todos os que tinham aquele sobrenome, até que o encontra. Entretanto, ela não devolve simplesmente a caixa, falando diretamente com ele. Opta por acompanhar seus hábitos e constrói um pequeno jogo para que ele encontre a caixa, como que milagrosamente.
  • incomodada com a forma mal-educada e grosseira com que o dono da quitanda trata seu único funcionário, ela aproveita uma coincidência em que consegue a chave de seu apartamento e, conhecendo seus horários, entra em sua casa para deixar uma série de pequenas surpresas punitivas para ele.
  • já que seu pai levava uma vida muito fechada, ela decide roubar-lhe um anão de jardim e consegue que uma mulher que fará uma viagem por várias cidades do mundo o leve, tire fotos dele em um ponto turístico de cada cidade e envie as fotos diretamente ao seu pai, como se tivessem sido enviadas pelo próprio anão, que decidiu viajar. Com isso, cria em seu pai uma dúvida grande o suficiente para motivá-lo a finalmente viajar.
  • de uma vizinha, cujo marido havia morrido há 18 anos e cuja dúvida sobre seu amor permanecia preenchendo-lhe a vida, rouba-lhe as cartas que havia recebido dele e, recortando minuciosamente algumas palavras, compôe uma outra que envia pelo correio como se tivesse sido enviada por ele há 18 anos, perdida em um acidente de avião nos andes e reencontrada agora, após uma expedição ter se deparado com os destroços do acidente. Nesta carta, deixa claro o quanto ele a amava.

Seguia assim Amélie, reconfortando alguns e punindo outros, mas sempre distante de si mesma e de seu próprio desejo. Sempre interagindo profundamente com as pessoas através de jogos à distância.

É ao conhecer um rapaz, Nino, na estação do metrô que começa em sua vida um grande turbilhão. Apaixona-se por ele, mas é incapaz de se aproximar. Em um evento, ele esquece na estação um álbum de fotos, que ela tenta devolver mas não o alcança. Vê as fotos uma a uma, por muito tempo. Imagina mil coisas. O álbum é de fato uma coleção de fotos rasgadas ou amassadas e jogadas fora, que foram coletadas por Nino debaixo das máquinas de fotos espalhadas pela cidade. É uma coleção. Aquilo a faz sentir-se parecida com ele de alguma forma. Pensa sozinha: "isso é que é álbum de família".

Em busca de recuperar o álbum, Nino deixa anúncios pela estação de metrô. Amélie vê o anúncio e leva dias pensando se liga ou não e em qual seria a melhor maneira de fazê-lo, "o melhor estratagema a adotar" (palavras suas). Por fim, incentivada por um vizinho confidente, decide ligar.

A sequência que se desenrola daí em diante é surpreendente por sua perspicácia: Amélie prepara uma forma única de devolver o álbum, marcando como ele um encontro em um dado local e hora. Prepara um jogo que ele deve seguir, com vários passos que ela monitora à distância. Finalmente, com o álbum já nas mãos dele, ela liga indicando uma página do álbum. Nesta página, Nino encontra alguns recortes de fotos dela, onde se lê em conjunto uma pergunta: "Quer me conhecer"?

Sua relação com Nino vai se estabelecendo assim, através de jogos e recados deixados na estação de metrô. Um dia finalmente eles marcam um encontro no café onde ela trabalha. Chegando lá, ele a reconhece após breve tempo e, ao falar com ela, ela nega que seja a pessoa que ele procura. Não consegue estar ali. Angustiada, trava uma luta entre o medo de relacionar-se e o desejo de fazê-lo. Antes que ele se vá, desistindo, ela escreve um novo papel e pede a uma colega que deixe no bolso dele, dando início a uma nova e longa sequência. É só depois desta sequência que ele finalmente aparece em sua casa. Ela não abre a porta e não fala com ele. Ali, distantes não mais de meio metro um do outro, ele só fala com ela através de um papel passado por baixo da porta. Ele vai embora mas volta, pouco depois que ela decide sair atrás dele, após ouvir um importate conselho do vizinho confidente. Eles se encontram justamente na porta, quando ela a abre. Quando ele começa a falar, ela toca sua boca com o dedo, num sinal de pedido de silêncio. Não falam mais nada, apenas entregam-se um ao outro. Começam um namoro daí em diante.

Nota-se na história de Amélie esta marca da vida à distância, como de dentro de uma redoma de vidro. Em seus diálogos com o vizinho confidente, não falam dela, mas de uma moça jovem, presente em um de seus quadros. É assim, em terceira pessoa, que eles conversam sobre ela e que ele lhe dá seus conselhos. Ironicamente, o vizinho possui uma doença congênita que torna seus ossos frágeis como vidro e, por isso, não pode sair de casa. Seu conselho mais importante, que lhe causa algum insight sobre sua própria situação, e a motiva a ir atrás de Nino, foi: "Amélie, seus ossos não são de vidro como os meus. Entregue-se à vida antes que seu coração seque. Você dá conta".

Embora não seja teimosa, Amélie, mostra grande obstinação e capacidade intelectual quando elabora os diversos jogos com seu pai, com vizinhos e com Nino. É parcimoniosa e bondosa com os outros. Saudável fisicamente, não apresenta nenhum sintoma de conversão histérica e sua sexualidade, em um sentido estrito, é ausente. Embora viva fantasiando, suas fantasias não tem para ela um caráter de realidade. Não delira, apenas vive à distância, com enorme riqueza de experiências no mundo dos pensamentos, mas uma pobre vida no mundo real.

Com este contexto em mente, pergunto: há sinais suficientes para que possamos acreditar que a estrutura de Amélie é Obsessiva? Além disso, podemos falar em um caráter de passagem de pais para filhos de uma neurose?