quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A Neurose Obsessiva e o Capitalismo: uma simbiose?

Escola Freudiana de Belo Horizonte/Iepsi – Seminário Neurose Obsessiva
Ata de 24/09/2008, por Luigi

A Neurose Obsessiva e o Capitalismo: uma simbiose?


Alguns autores em textos que lemos consideraram a neurose obsessiva e o capitalismo como correlacionados. Cooperam um com o outro e se beneficiam mutuamente. A doença se apóia no sistema. O sistema se beneficia da doença.

Meu interesse é tentar articular como isso ocorreria. Seria mesmo assim? Uma resposta afirmativa indicaria que podemos encontrar nas características do sujeito obsessivo os comportamentos que fazem esta simbiose.

Começamos pelo caráter anal que marca o obsessivo, que se manifesta por este comportamento de acumulação, de reter, controlar e planejar. De não perder nunca. Seria então o obsessivo do mundo capitalista um sujeito competitivo, tal como espera o sistema? Seria alguém que busca acumular dinheiro e bens, para quem o ter adquiriu valor fálico, já que reforça esta imagem que o obsessivo tem de si mesmo, daí deste lugar onde ele se vê, de fora, de longe, como expectador?

Vejo o obsessivo parcimonioso, que quer estar bem com todo mundo, zelando por sua imagem, mas incapaz de dizer não ou de bancar o próprio desejo. Este obsessivo, tapador de faltas, é um “escravo perfeito”, que tipicamente tentará atender às solicitações de seu chefe, inclusive àquelas que ele acha que o chefe tem. A empresa agradece. Em alguns casos remunera. É como se dissesse: “Dá-me teu tempo, tua vida, que em troca te dou o dinheiro e promessa de mais dinheiro. Com este dinheiro, poderás um dia fazer o que quiser, quando quiser. Serás completo”. E o obsessivo acredita.

Em minha experiência em empresas, o que vejo são sistemas de gestão cada vez mais eficientes. Eficientes, claro, do ponto de vista do capital, não das pessoas. O capitalismo é uma pressão constante por cada vez mais eficiência, mais “performance”. A concorrência determina uma competição infinita, cujo resultado é o capital como grande mestre. O lucro é finalidade última.

Neste contexto, vejo muita neurose obsessiva. Líderes levados por suas imagens, grandes realizadores, porém pessoas sem desejo. Incansáveis, enfrentam jornadas diárias de dezesseis horas de trabalho, viajando pelo mundo, fazendo, fazendo e fazendo. Não param nos fins de semana, respondem e-mails, fazem propostas, preparam apresentações. São executivos de alto escalão. Subiram cada degrau, como medida de seu falo e, a cada degrau que subiram já miravam o próximo. Assim como com os novos gadgets e equipamentos eletrônicos, com o carro novo, o apartamento novo, a televisão de ultra-plasma nova,...

Uma vez almocei com um destes executivos, de médio escalão, por causa de um projeto. Depois de um bate papo sobre trabalho ou curriculuns, perguntei a todos o que faziam extra-trabalho. Vários tiveram o que falar. O executivo não respondeu. Quando lhe fiz a pergunta direta ele me disse que seu hobby era seu filho, de quatro anos. Não sei se ele se dava conta de que, morando em outro país como estava, e vindo ao Brasil somente aos fins de semana (nos quais frequentemente trabalhava), caia vítima de sua própria armadilha: quanto melhor era sua “performance” no palco com as feras, mais tinha que manter o chicote em riste, porque se parasse de chicotear seriam as feras que o comeriam.

Vejo também muita angústia e ansiedade, um medo dos “escravos obsessivos” em não dar conta das missões cada vez mais difíceis que aceitam sem questionar. Sempre contra a parede, sempre correndo para mostrar o seu valor. São obsessivos do baixo escalão, capazes e talentosos, mas seduzidos pelo falo-dinheiro. Angustiam-se com aquilo que acreditam que é o que se espera deles. Não chegam sequer a perguntar “o que espera de mim?”. Não ousam perguntar. Fogem a tudo que coloque em cheque sua imagem, narcísica, completa, sem falta.

É justamente este ciclo de alimentação constante de sua imagem narcísica que, a meu ver, prende o obsessivo numa busca por mais e mais realizar, cada vez mais em menos tempo, com menos custo. E o capital agradece.