quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A Neurose Obsessiva e o Capitalismo: uma simbiose?

Escola Freudiana de Belo Horizonte/Iepsi – Seminário Neurose Obsessiva
Ata de 24/09/2008, por Luigi

A Neurose Obsessiva e o Capitalismo: uma simbiose?


Alguns autores em textos que lemos consideraram a neurose obsessiva e o capitalismo como correlacionados. Cooperam um com o outro e se beneficiam mutuamente. A doença se apóia no sistema. O sistema se beneficia da doença.

Meu interesse é tentar articular como isso ocorreria. Seria mesmo assim? Uma resposta afirmativa indicaria que podemos encontrar nas características do sujeito obsessivo os comportamentos que fazem esta simbiose.

Começamos pelo caráter anal que marca o obsessivo, que se manifesta por este comportamento de acumulação, de reter, controlar e planejar. De não perder nunca. Seria então o obsessivo do mundo capitalista um sujeito competitivo, tal como espera o sistema? Seria alguém que busca acumular dinheiro e bens, para quem o ter adquiriu valor fálico, já que reforça esta imagem que o obsessivo tem de si mesmo, daí deste lugar onde ele se vê, de fora, de longe, como expectador?

Vejo o obsessivo parcimonioso, que quer estar bem com todo mundo, zelando por sua imagem, mas incapaz de dizer não ou de bancar o próprio desejo. Este obsessivo, tapador de faltas, é um “escravo perfeito”, que tipicamente tentará atender às solicitações de seu chefe, inclusive àquelas que ele acha que o chefe tem. A empresa agradece. Em alguns casos remunera. É como se dissesse: “Dá-me teu tempo, tua vida, que em troca te dou o dinheiro e promessa de mais dinheiro. Com este dinheiro, poderás um dia fazer o que quiser, quando quiser. Serás completo”. E o obsessivo acredita.

Em minha experiência em empresas, o que vejo são sistemas de gestão cada vez mais eficientes. Eficientes, claro, do ponto de vista do capital, não das pessoas. O capitalismo é uma pressão constante por cada vez mais eficiência, mais “performance”. A concorrência determina uma competição infinita, cujo resultado é o capital como grande mestre. O lucro é finalidade última.

Neste contexto, vejo muita neurose obsessiva. Líderes levados por suas imagens, grandes realizadores, porém pessoas sem desejo. Incansáveis, enfrentam jornadas diárias de dezesseis horas de trabalho, viajando pelo mundo, fazendo, fazendo e fazendo. Não param nos fins de semana, respondem e-mails, fazem propostas, preparam apresentações. São executivos de alto escalão. Subiram cada degrau, como medida de seu falo e, a cada degrau que subiram já miravam o próximo. Assim como com os novos gadgets e equipamentos eletrônicos, com o carro novo, o apartamento novo, a televisão de ultra-plasma nova,...

Uma vez almocei com um destes executivos, de médio escalão, por causa de um projeto. Depois de um bate papo sobre trabalho ou curriculuns, perguntei a todos o que faziam extra-trabalho. Vários tiveram o que falar. O executivo não respondeu. Quando lhe fiz a pergunta direta ele me disse que seu hobby era seu filho, de quatro anos. Não sei se ele se dava conta de que, morando em outro país como estava, e vindo ao Brasil somente aos fins de semana (nos quais frequentemente trabalhava), caia vítima de sua própria armadilha: quanto melhor era sua “performance” no palco com as feras, mais tinha que manter o chicote em riste, porque se parasse de chicotear seriam as feras que o comeriam.

Vejo também muita angústia e ansiedade, um medo dos “escravos obsessivos” em não dar conta das missões cada vez mais difíceis que aceitam sem questionar. Sempre contra a parede, sempre correndo para mostrar o seu valor. São obsessivos do baixo escalão, capazes e talentosos, mas seduzidos pelo falo-dinheiro. Angustiam-se com aquilo que acreditam que é o que se espera deles. Não chegam sequer a perguntar “o que espera de mim?”. Não ousam perguntar. Fogem a tudo que coloque em cheque sua imagem, narcísica, completa, sem falta.

É justamente este ciclo de alimentação constante de sua imagem narcísica que, a meu ver, prende o obsessivo numa busca por mais e mais realizar, cada vez mais em menos tempo, com menos custo. E o capital agradece.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

José Maurício de Oliveira Neto – 23/08/2008
Ata: aula – 20/08/2008
Seminário: Estruturas Clínicas – Neurose
Psicanálise e Religião Coordenadora: Yolanda Mourão Meira

(Freud em “O Futuro de uma Ilusão”)
“A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação (em busca da felicidade), desde que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais.”

(Rudolf Alers em “The Successful Error – A Critical Study of Freudian Psychanalysis”)
“Ninguém que penetre no espírito da psicanálise e, ao mesmo tempo, seja inteiramente conhecedor da essência da fè sobrenatural, pode acreditar que estas duas coisas sejam compatíveis. Já várias vezes foi declarado, tanto por autores católicos como protestantes, que a psicanálise é, basicamente anticristã. Não há maneira de se sair deste dilema: ou se acredita em Cristo ou na psicanálise. Os próprios sequazes de Freud, não tem dúvidas a tal respeito. Para eles, a religião não significa mais do que uma manifestação particular do espírito humano, da mesma categoria que as práticas da magia, do totemismo ou da bruxaria. Sempre os psicanalistas procuraram provar que a religião é um produto das forças instintivas e da reação contra as mesmas.”

(Jacques Lacan - 29/10/1974 - Entrevista à imprensa no Centre Culturel Français – Roma)
Sra. Y - Por que ter empregado essa expressão do triunfo da religião sobre a psicanálise? O senhor está persuadido de que a religião triunfará?
J. Lacan - Sim, ela não triunfará somente sobre a psicanálise, ela triunfará sobre muitas outras coisas ainda. Nem mesmo se pode imaginar o quão poderosa é a religião. Recém falei um pouco do real. A religião vai ter também aqui muito mais razões para apaziguar os corações, se assim se pode dizer, porque o real, por menos que a ciência queira se envolver, a ciência de que falava há pouco, é novidade, a ciência, ela vai provocar um monte de rebuliço na vida de cada um. E a religião, sobretudo a verdadeira, tem recursos que nem se pode imaginar. Basta ver por enquanto como ela fervilha; é absolutamente fabuloso. Eles levaram tempo, mas de repente compreenderam qual era sua chance com a ciência. A ciência vai introduzir tais convulsões que será preciso que, a todas essas convulsões, eles dêem um sentido. E, no que diz respeito ao sentido, eles sabem o que fazem. São capazes de dar um sentido, pode-se dizer, realmente a qualquer coisa, um sentido à vida humana, por exemplo. São formados para isso. Desde o começo, tudo o que é religião consiste em dar um sentido às coisas que eram outrora as coisas naturais. Mas não é porque as coisas vão-se tornar menos naturais, graças ao real, não é por isso que se vai parar de produzir o sentido. E a religião vai dar um sentido às provas mais curiosas, aquelas sobre as quais justamente os próprios cientistas começam a ter uma pontinha de angústia; a religião vai encontrar para isso sentidos espantosos. Basta ver como as coisas funcionam agora. Eles estão se atualizando.
Escreve Lacan (RSI):
“Sem dúvida a adivinhação do inconsciente adverte o sujeito, desde muito cedo, de que, na impossibilidade de ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher que falta aos homens ou, ser a Mulher de Deus. A foraclusão do Nome-do-Pai tem como efeito fazer existir A Mulher. Deus é a mulher tornada toda. Dito que faz da mulher não–toda o Deus da castração. O que, porem, não faz de Deus um Todo não há Outro que responda como parceiro - sendo a necessidade da espécie humana que haja Outro do Outro. É aquele a que se chama geralmente Deus, mas que a analise revela que é simplesmente A mulher encarnação de um gozo infinito, uma Mulher completa, não marcada pela castração”

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Investigando raízes do comportamento humano, evidenciando a atitude emocional que o governa e atenta aos valores que lhe são inerentes, a psicanálise, sustenta uma visão sobre o fenômeno religioso como um fator de alienação e neurose que sendo pobre, doente, infantil, autoritário e vicioso impede o ser humano de viver e expressar-se em sua individualidade. Assim, tudo o que o leva a se conservar escravo, dependente ou incapaz de buscar a liberdade e a realização é neurótico e, como tal, tende ao empobrecimento, ao sofrimento e à capitulação.
Na ciência da psicanálise, a religião origina-se do sentimento de incapacidade do ser humano, confrontado com as forças da natureza e suas pulsões. Nesse sentido, Deus seria uma invenção do homem, e a origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de desamparo infantil. A imagem de Deus emerge exclusivamente da relação do menino com o pai sendo um precipitado dos conflitos edipinianos, com suas conseqüentes renúncias instintuais. E é no superego que vamos encontrar a imago de Deus, que substituiu e transformou a imago do pai. As idéias religiosas não constituem conseqüências de experiências ou resultados finais de pensamentos. São ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade.
Considerando o indiscutível posicionamento da psicanálise frente à mística religiosa, tento levantar aqui a questão da formação do psicanalista e seu posicionamento, onde muito mais que uma simples escuta e manejo da transferência, a clínica exige que o profissional tenha tido experiência anterior com sua própria análise e entenda bases fundamentais da teoria psicanalítica.
Será concebível praticar psicanálise quando discordamos de um ponto tão relevante da teoria freudiana?



Os deuses são felizes,
Vivem a vida calma das raízes.
Seus desejos o Fado não oprime,
Ou, oprimindo, redime
Com a vida imortal.
Não há
Sombras ou outros que os contristem.
E, além disto, não existem...
(Fernando Pessoa)


Há 70 anos, escreveu Freud:
O misticismo é a obscura autopercepção do reino anterior ao ego, do id.
Achados, Idéias, Problemas (Obras Completas de Sigmund Freud – Vol. XXIII)
22 de agosto de 1938 – publicado postumamente em 1941 - Sigmund Freud (1856-1939)

domingo, 10 de agosto de 2008

Psicanálise da Fé: a renúncia a um ídolo

Por Cleide Cristina da Silva Scarlatelli

(A psicanálise) não possui nenhum meio para decidir se a fé é só isto(ilusão), se o rito é originariamente, na sua primeira função, ritual obsessivo, se a fé é só consolação em base ao modelo infantil; é em condições de exibir ao homem religioso a sua caricatura, mas deixa a ele o encargo de meditar a possibilidade de não assemelhar-se a esta trejeitada reprodução.(Paul Ricouer, De l´Interprétation)

Em nossos encontros nesse semestre, a partir da obra freudiana, buscamos compreender o sentido de uma “doença louca” que enreda o sujeito em ações paralisantes, como repetições, dúvidas, impedimentos, escrúpulos, impossibilitando o movimento que é próprio da alma[1].

Sentimentos como de culpa e punição levam o obsessivo a essas práticas defensivas.“Um neurótico obsessivo pode ser oprimido por uma sensação de culpa que seria adequada para um grande assassino, embora, na realidade, de sua infância em diante, tenha-se comportado para com seus concidadãos como o mais escrupuloso e respeitável membro da sociedade”(FREUD, vol.XIII, p. 109). Portanto, diante desse cenário de “crime e castigo” o sujeito se defende cerimoniosamente.“A renúncia dos atos obsessivos gera um angústia intolerável. Parece que a angústia só se resolve no ato. (...) Os atos obsessivos são neste sentido um arremedo de ato, uma substituição patológica do ato humano livre-quanto a ação humana possa ser livre”(FRANCO, 2003, p. 63).

Em nossa discussão da aula passada, a partir da leitura de Atos obsessivos e práticas religiosas deparamos com um desafio a mais, o texto freudiano aproxima essa “doença louca” de uma expressão cultural, a religião, que até mesmo alguns ateus, principalmente aqueles de origem mineira, não ousam pronunciamentos sem um certo “temor e tremor”, graças a Deus! Como explicita S.Franco, “Freud encerra seu artigo dizendo que a neurose obsessiva pode ser entendida como um degeneração patológica da religião”(FRANCO, 2003, p. 64).Vejamos o que Freud escreve a esse respeito:

Diante desse paralelos e analogias podemos atrever-nos a considerar a neurose obsessiva como o correlato patológico da formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a religião como uma neurose obsessiva universal.(Freud, vol. IX, p.
130)

Essa concepção volta a ser enfatizada em O Futuro de uma ilusão em 1927 quando aproxima a neurose infantil, pela qual a criança humana em seu desenvolvimento passa, com a humanidade que teria também durante o seu percurso se deparado com algum estado análogo às neuroses[2]. “Assim, a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o Pai”.(FREUD, vol. XV p. 57) . Lembremos que nessa obra Freud define a religião não como um erro mas como uma ilusão, isto é como realização “dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade”(Freud, Vol XV,p.43) . Freud assinala nessa obra três grandes desejos que se encontram entrelaçados. O desejo de apaziguar os sofrimentos causados tanto pelas forças ameaçadoras da natureza quanto pela restrição das forças pulsionais desemboca, segundo M. Palmer no desejo pela figura do Pai(PALMER, 2001, p. 58). Esse tema do complexo paterno é tratado com profundidade na pesquisa de André Guimarães em A paternidade no confronto entre psicanálise da religião e fé. Segundo A. Guimarães esse tema tem lugar central na obra de Paul Ricouer De l´Interprétation. Como explica A. Guimarães, “ora se a problemática da crítica da religião em Freud é relevada por Ricouer neste seu ensaio, esta, por conseguinte, só poderá ser posta em termos de uma crítica da figura do pai. E é o que Ricouer faz”(GUIMARÃES, 1999, p. 18).

Na análise de Ricouer, ética e religião se encontram justamente nesse complexo paterno que por sua vez tem a sua fonte no complexo de Édipo(RICOUER, 1965, p.229). Entretanto, a partir da culpabilidade presente no complexo edipiano a moral responde com a introjeção do ideal enquanto que na religião temos a projeção da onipotência. Como explica A. Guimarães,

“a ilusão e não a moral, designa, portanto, esse processo (projeção) de ‘colocar na realidade figuras semelhantes ao Pai’. Tal projeção tem origem na onipotência do desejo.(...)Na religião, a original onipotência do desejo é objeto de um deslocamento, ou para dizer conforme a linguagem cifrada do desejo, é objeto de uma renúncia que se verifica não em proveito da natureza e da realidade ou do Super-Ego e do sublime mas de uma realidade posta como Deus e como Pai.”(GUIMARÂES, 1999,p.68) .

Portanto, é justamente aqui, na onipotência do desejo, que estudamos em Totem e Tabu, a aproximação da neurose obsessiva com a religião.“É nas neuroses obsessivas que a sobrevivência da onipotência dos pensamentos é mais claramente visível”(FREUD, vol.XIII, p. 111,). Segundo Guimarães, Ricouer mostra que na visão psicanalítica a religião se relaciona não só com tema da culpabilidade mas também do consolo que se encontra articulado com o complexo paterno. “(...) O homem ´está destinado a seguir sendo sempre uma criança´, investe os poderes desconhecidos e terríveis com os traços da imagem paterna. Tal é a interpretação especificamente psicanalítica da religião: seu sentido ´oculto` é a repetição sempiterna da nostalgia do pai”(RICOUER, 1965, p. 247).

Na exposição de A. Guimarães , vemos que Ricouer se posiciona sobre a possibilidade de uma convergência entre a psicanálise e fé, afirmando a necessidade de uma renúncia ao pai, como não só essencial para a fé mas como sua própria tarefa... Em outros termos, a posição iconoclasta de Freud, segundo Ricouer, é essencial à fé. “Uma problemática da fé implica necessariamente uma hermenêutica da desmitificação”(Ricouer, 1965, p.508). A psicanálise teria um papel fundamental para a própria fé , purificando-a da ilusão da qual muitas vezes corre o risco. “O risco fundamental da ilusão religiosa, e é isto que importa salientar aqui, consiste em projetar-se em Deus, isto é projetar um Deus para poder se assenhorar dele, para poder fazer de si esmo um Deus”[3](GUIMARÂES, 1999, p.86). Essa questão fica ainda mais clara quando Guimarães escreve:

Portanto, aquilo que a psicanálise freudiana da religião põe em evidência, e que se mostra em acordo com as exigências da fé, é precisamente o engano que pode presidir a religião:`há um modo de crer em Deus, de nomeá-lo Pai e de nomear-se filho que constitui a mais sutil e eficaz maneira de dizer que Deus não é Deus e que o homem é Deus´. Se Freud impõe ao homem ‘ conversão do Desejo ao finito’ , a fé só poderá ser edificada ´sobre a morte do desejo de ser Deus’.” (GUIMARÃES, 1999, p. 91)

Entretanto, isso não implica em afirmar, segundo Ricouer, que o totalmente outro seja uma ilusão. Na verdade, há sempre a possibilidade dessa ilusão objetivante mas é uma tarefa da fé denunciar a idolatria da ilusão religiosa para que o símbolo possa viver. Na compreensão de Ricouer, “vemos, assim, como a psicanálise ilumina adequadamente o processo de ‘nascimento do ídolo’, mas é coisa bem diversa dizer que a problemática da fé tem a ver com uma problemática de ilusão, e dizer que o totalmente outro seja uma ilusão”(GUIMARÃES, 1999,p.91).

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

FREUD, Sigmund. Obras completas. Vol.IX. Rio de Janiero: Imago, 1969.
FREUD, Sigmund. Obras Completas. Vol.XIII. Rio de Janeiro Imago,1969.
GUIMARÃES, André Eduardo. A paternidade no confronto entre psicanálise da religião e fé. Porto Alegre,EDIPUCRS, 1999.
RICOUER, Paul. De l´Interprétation. Paris, 1965.
PALMER, Michael. Freud e Jung: sobre a religião. São Paulo: Loyola, 2001.
FRANCO, Sérgio de Gouvêa. Os escritos religiosos de Freud: uma introdução. IN: WONDRACEK, Karin Hellen Kepler(org). O Futuro e a ilusão: um embate com Freud sobre psicanálise e religião. Petrópolis: Vozes,2003.
SÊNECA. Sobre a tranqüilidade da alma. São Paulo: Nova Alexandria,1994.

[1] Como lemos na obra de filósofo do Estoicismo Romano: “Com efeito, a alma humana é, por natureza, ágil e dada a movimentos” . Sêneca, Sobre a tranqüilidade da alma., 1994,p.25.

[2] Segundo Michael Palmer, “ essas três obras [O futuro de uma Ilusão, O Mal-estar na civilização, Moises e o monoteísmo] representam uma importante mudança na análise de Freud, que se afasta de uma discussão da origem da religião, apresentada tão provocativamente em Totem e Tabu, ruma a um exame da religião como fenômeno cultural primordial. (...) sua argumentação gira em torno da classificação da religião como um aspecto da civilização humana-na realidade, aponto de transformar a explicação da origem da civilização, para todos os propósitos práticos, em explicação da origem da religião. PALMER, Michael, Freud e Jung: sobre a religião. São Paulo, Loyola, 1997. p.51.

[3] Esse perigo de idolatria é duramente criticado pelo filósofo Sören Kierkegaard em toda a usa obra. É dentro desse contexto de crítica à cristandade que devemos entender o conflito que Kierkegaard estabelece tanto entre razão e fé quanto interioridade e exterioridade ou objetividade e subjetividade, como igualmente esse de que agora tratamos entre a comunidade e o indivíduo. Segundo John W. Elrod, “Kierkegaard não estava conduzindo um debate filosófico in vacuo”, mas ao contrário, como um pensador engajado politicamente, “lutando para impedir o uso ideológico do nome de Cristo” (ELROD, W. Kierkegaard and Christendom,p.213) Como Kierkegaard escreve:Mas o que, então, é a “cristandade”? Não é a cristandade a maior tentativa possível de adorar a Deus “edificando os túmulos dos profetas e enfeitando os sepulcros dos justos e dizendo: “Se estivéssemos vivos nos dias de nossos pais, não teríamos sido cúmplices seus no derramar o sangue dos profetas” - ao invés de, como Cristo demandou, segui-lo e sofrer pela doutrina?” (KIERKEGAARD, Soren, The moment and Late Writings,p.133) Em uma outra passagem, essa crítica se torna ainda mais clara quando apresenta a estratégia da cristandade em se alojar, inescrupulosamente, com seus interesses estranhos ao cristianismo na Igreja de Cristo. “Mas a cristandade não é de forma alguma a Igreja de Cristo; também não digo que as portas do inferno ganharam poder sobre a Igreja de Cristo, certamente não. Não, eu digo que a “cristandade” é um galimatias que se fixou no Cristianismo como uma teia de aranha sobre uma fruta e que agora quer se confundir com o cristianismo, assim como quando a teia de aranha considera-se a fruta porque ela, apesar de ter bastante menos qualidade, é algo que gruda-se à fruta”. (KIERKEGAARD, Soren, The moment and Late Writings,p.215) A crítica de Kierkegaard ao uso ideológico do cristianismo é comentada e explicitada por David Gouwens com irretocável clareza mostrando o seu sentido e propósito dentro do contexto da cristandade. Segundo ele,a investigação kierkegaardina sobre a idolatria nos apresenta os caminhos pelos quais o “mundo”, seja na forma de estado, igreja ou grupo, e com freqüência em nome mesmo do cristianismo, atribui-se falar em nome de Deus, mas que na verdade apenas está sacralizando os interesses dos próprios grupos,(...)quer no cadavérico “silêncio” da integração elitista de cristianismo e cultura da Dinamarca da Golden Age, quer nas sutis ou horríveis tiranias da época moderna. Kierkegaard sabia, tão certamente quanto sabia Feuerbach, como “Deus” se torna mera projeção da identidade dos grupos e valores, em particular, como a igreja apóia os crucificadores. (GOWENS,David. Kierkegaard as Religious Thinker, P. 231-232.)

domingo, 27 de julho de 2008

O Perfume

Seminário - Estruturas Clínicas: Neurose Obsessiva
Por Ângela Vianna Rache
Junho 2008

Dois sentidos
O olfato e o sabor estão firmemente ligados.
Nosso nariz nos leva a apreciar uma especialidade gastronômica antes de colocá-la na boca.
Cheiramos o que vamos comer e quando comemos a percepção gustativa tem uma parte dela no perfume dos alimentos.
O olfato nos leva a reagir a pessoas antes de conhecê-las
Levamos em conta vários aspectos, mas sem dúvida nenhuma o povo diz “isto tem cheiro de”...
Pensando na primeira experiência de satisfação, o cheiro da mãe fica indelevelmente forjado em nossa memória. Mãe tem cheiro de leite. Tem cheiro de satisfação.
O instinto animal é guiado pelo olfato tanto na caça quanto no acasalamento, e essa estrela nos guia, apesar de não nos darmos conta dela.
O olfato é uma maneira muito especial de entrarmos em contato com o mundo. São estímulos diretos para o instinto, sem tradução, não há palavras para descrever uma sensação olfativa, importamos adjetivos.
Em O Perfume, Jean Baptiste Grenoille, nasce no pior lugar de uma cidade que cheira muito mal, numa peixaria.
Ele não conhece a mãe nem é seu desejo. A morte ronda Jean Baptiste desde os primeiros minutos da sua vida, mas ele resiste, e sobrevive. Aos cinco anos ainda não fala, e mais tarde, quando fala já sabe que o mundo das palavras não é capaz de traduzir o que faz de melhor, reconhecer todos os cheiros do mundo.
Jean Baptiste cresce e se refugia num mundo particular, não interage com as pessoas e sobrevive por se tornar quase invisível. Sofre de um isolamento autista, alienado das outras pessoas.
Descobre o prazer maior ao sentir o perfume de uma mulher virgem, e logo ele desaparece sem que ele consiga aprisiona-lo.
Jean Baptiste quer desesperadamente este aroma, quer ser seu dono, e por ele receber o reconhecimento das pessoas. Ele destila gota por gota e quando a multidão delira com seu perfume, ainda falta algo e ele volta para onde nasceu e se deixa devorar pelos mendigos mais sujos de paris. Ainda faltava alguma coisa.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Um caso de pensamentos obsessivos

IEPSI - Seminário Neurose Obsessiva
em 02/07/2008 por Luigi

Aqui busco relatar um pouco da história de Davi, que após um episódio foi tomado por um pensamento obsessivo que durou alguns dias até uma conversa que tivemos. A situação de Davi, embora eu presuma ser típica da clínica nos dias atuais, me trouxe várias lembranças de nossos estudos sobre a neurose obsessiva e gostaria de compartilhá-las com vocês, a fim de que possamos debatê-las e de ouvir outras referências que possam lhes ocorrer.

Davi iniciou um longo namoro ainda na adolescência, namoro este que durou até o ano passado. Sempre teve muito desejo por outras mulheres e, vez por outra por um período ainda no início do relacionamento, permitiu-se algumas traições. Posteriormente, tomado pela culpa frente à grande entrega de sua namorada, tornou-se fiel. Esta fidelidade durou mais alguns anos, até que o desejo voltou a importuná-lo com grande força, ao ponto de ele se expressar frequentemente com amigos e cada vez mais aproximar-se de flertes arriscados.

Uma situação o levou por um período à permanência fora do país junto a um grupo de brasileiros, com retornos periódicos para sua casa. Lá, distante de sua vida e da inércia, permitiu-se ser ele mesmo, saia com frequência, se relacionava com outras pessoas, fazia amigos. Terminou por se envolver com uma outra brasileira que muito o atraia, com quem estabeleu um relacionamento.

Passou então a viver uma vida dupla: a outra, Suzana sabia da namorada Flávia e, embora ele evitasse a todo custo trazer à convivência dos dois qualquer referência a esta, Suzana aceitava bem a situação, demandando dele apenas que estivesse com ela quando assim fosse. Flávia de nada sabia. Este relacionamento duplo, durou alguns meses, onde por várias vezes ele dizia que "o perfeito seria ter as duas".

Progressivamente Suzana passou a se envolver e por várias vezes ele relatou tê-la percebido triste quando aparecia qualquer referência, ainda que remota, ao seu namoro. O próprio namoro com Flávia foi se degradando e a dúvida quanto a terminá-lo ou não o ocupou por cerca de dois ou três meses. Enfim decidiu terminar, após o grupo retornar para o Brasil. Já não havia sequer desejo por Flávia, e ele finalmente optou por libertá-la e ao mesmo tempo libertar-se.

Livre após o término do relacionamento, entregou-se a provar pelo mundo as oportunidades que teve com outras mulheres. Algum tempo depois, seu desejo por Suzana, com quem manteve um relacionamento, também começou a diminuir. Não queria comprometer-se e fantasiava (ou percebia?) suas demandas por um relacionamento com compromisso. Isso claramente o incomodava, gerava uma certa culpa, embora antes, quando ela era a outra, não havia qualquer culpa em estar com ela. Terminou seu relacionamento com Suzana, mas manteve-se sempre por perto, ainda que ela o pedisse para desaparecer. Sempre que ele se distanciava um pouco mais, era ela quem se aproximava. E assim eles se viam de vez em quando. Havia um certo medo de ficar sozinho.

Ao mesmo tempo, seu contato com a ex-namorada foi diminuindo e, em uma das vezes em que ele a procurou, ela esclareceu o que queria: "isso de ficarmos amigos não dá... melhor pararmos de nos falar". Ele sentiu a perda.

Esta perda trouxe a reboque novas dúvidas quanto à sua decisão. Ele manteve as dúvidas em suspenso por um tempo, mas passou então a sentir que havia perdido algo muito valioso com Flávia e decidiu tentar um resgate. Voltaram a se falar e a discutir um possível retorno. Sairam juntos e, ao deixá-la em casa, foi convidado pelos pais dela a entrar. Seguiu-se uma conversa de família onde eles expuseram o que pensavam, iniciando por dizer que a questão era só dos dois, Davi e Flávia, mas progredindo em seguida para uma cobrança um pouco disfarçada quanto ao futuro dos dois e um possível casamento. Posteriormente um deles chegou a dizer que, após o término do namoro, pensou e até mesmo planejou algum tipo de embargo no trabalho ou agressão física a Davi. Esta fala, escutada como uma ameaça velada, foi questionada por Davi: “o que você está querendo dizer?”. A resposta foi uma ameaça explícita "não tenho muito a perder... sou capaz de qualquer coisa". Deu-se início um pensamento obsessivo que durou por dias: tratava-se apenas de um blefe ou uma ameaça com plano e disposição de se concretizar, que o deixava correndo algum tipo de perigo? Até onde esta ameaça iria? Atingiria seu trabalho? Ele próprio fisicamente? De que maneira?

Foi neste ponto que Davi me procurou, três ou quatro dias depois da conversa com os pais de Flávia. Precisava se abrir e, enquanto falava da ameaça que recebeu, disse: "ele pode fazer qualquer coisa... é loucura mesmo... pode até mandar me matar". Era esse o medo por trás da obsessão, que cedeu à idéia de que os pais dela sabiam que Flávia gostava muito dele e que, sendo assim, não lhe fariam nenhum mal. A ameaça tinha então que ser um blefe, que tinha o provável objetivo de forçá-lo a uma decisão mais sólida. Estivesse ele certo de seu desejo, a ameaça de nada teria efeito, já que Davi poderia posicionar-se imediatamente, tranquilizando-os quanto a suas intenções de um futuro com Flávia. Na dúvida, no entanto, a ameaça o colocava frente a uma decisão de vida ou morte. Mas de onde vinha novamente esta dúvida, que parecia ter cedido frente à certeza de que algo muito valioso havia sido perdido?

Parecia não haver resposta daí em diante. A conversa caminhava para um fim, já que os pensamentos obsessivos haviam cedido. Ele teria que se haver com a decisão de voltar a relacionar-se ou não com Flávia, apesar da postura dela e de seus pais. Porém, neste ponto, já calmo e refeito, ele expõe então um outro ponto, segundo ele, o mais difícil de falar: a transa com Flávia na noite anterior à conversa com seus pais “não havia sido tão boa... havia sido algo morno, normal... não se comparava ao desejo e o prazer com Suzana”. Aí estava ela, a dúvida: talvez este algo tão valioso, o relacionamento com Flávia, somente o fosse como tal na fantasia. O objeto a, perdido para sempre, havia, por um momento, ganhado as feições de um relacionamento com Flávia. Um relacionamento perfeito que, no entanto, não existe e, se existiu, isto foi há muito tempo.

A conversa avançou e resgatou algumas significações importantes de conversas anteriores. Flávia era uma mulher perfeita para construir uma vida juntos, uma mulher para o futuro, embora seu presente com ela fosse excessivamente normal e apático. Uma mulher com quem ele teria segurança financeira, estabilidade, filhos, uma boa casa e uma vida confortável. Suzana, por outro lado, era um presente intenso, um objeto de seu desejo que, pelo menos sexualmente, dava a ele algo que nenhuma outra dava. Mas não era uma mulher para o futuro, embora ele não soubesse (ou não quisesse) dizer porquê.

Deste evento em diante, Davi decidiu-se: não queria Flávia. Não era mulher para o presente, era mulher para o futuro, mas sequer este futuro seria o mesmo já que incluia seus pais e sua postura desequilibrada. Conversou com ela e deram um ponto final à história. Pelo menos por enquanto.

Restaurou seu relacionamento com Suzana, sem um compromisso explícito, mas com uma convivência agradável, divertida, da qual ele muito gosta e disfruta. Pelo menos por enquanto, também.

Mais recentemente foi tomado novamente pela culpa após dormir com uma outra mulher. Passou o dia sentindo-se culpado por Suzana. Sabia que esta culpa não tinha sentido (ou melhor dito, há sentido, mas é outro), já que não havia compromisso explícito com ela. Mas precisava ouvir isso de alguém, tal como o Homem dos Ratos se abria com seu amigo em busca de uma opinião sobre o que sentia. E, após compartilhá-la e ouvir uma confirmação de que nela não havia fundamento, sentiu-se melhor.

Este caso de Davi me trouxe à mente as referências abaixo, estudadas em nosso seminário sobre a Neurose Obsessiva:
  • a protelação, em especial no âmbito amoroso como indicou Freud, e a dificuldade em lidar com a perda. Esta vontade de deixar todas as portas abertas, de não se decidir, já que toda escolha implica em uma renúncia.
  • a culpa do obsessivo, que é culpa de outra coisa, mas que volta e meia se debruça sobre uma situação qualquer e retorna para puní-lo.
  • o isolamento, através da separação de duas vidas quase completamente desconectadas uma da outra, e do seu isolamento no mundo do amor, marcado nestas relações onde ele não se abre verdadeiramente com nenhuma delas.
  • o desejo impossível do obsessivo, onde nenhuma das duas serve, uma é só presente, outra é só futuro.
  • o contraste entre a "esposa perfeita", ótima futura mãe, parceira para a vida, e a outra, a puta, a que se envolve pelo prazer do sexo, e por quem o desejo pode aflorar em sua plenitude.

Embora não possa ser conclusivo, entendo que a estrutura de Davi é obsessiva. O que vocês acham? E o que acrescentariam?

E finalmente, o que dizer desta relação com o futuro? Planejado, fechado, sem buracos. Ancorado em fantasias de garantias, buscando calar os riscos e, principalmente, tapar esta castração que o tempo insiste em nos mostrar e com a qual o obsessivo mantém especial relação: a morte, inevitavelmente, chegará também para Davi.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Seminário: “Estruturas clínicas - neurose obsessiva”
Ata de 19/10/2007
Por Rui Barbosa Júnior

Quando me procurou, Fábio já fizera análise por algum tempo. Na primeira sessão, afirmou ser uma pessoa muito dominadora. Sua maneira de se apresentar, cordial, educada e simpática, em nada revelava a tendência que anunciara. Paradoxalmente, às vezes tinha acessos de cólera em casa, por motivos banais.

Era gerente da filial de uma grande empresa. Como tal, tinha de tomar decisões relativas aos empregados, ação que executava sem grandes problemas, porque seguia fielmente a lei. Dizia-se justo nesses casos. Explicava: “No serviço que faço, as normas são claras, e as situações, repetitivas, então não é preciso pensar muito para resolver”. Empenhava-se por me demonstrar sua consideração para com os subordinados.

Gabava-se de sua simplicidade ao relatar comentários ouvidos a seu respeito, tais como: “O Dr. Fábio nem parece ser o chefe, pois conversa com todos; até conta piadas”. Um dia ele me disse: “Já reparei que, quando estou com outras pessoas, só faço aquilo que sei fazer muito bem; se tiver de competir, então eu não entro”. Usava roupas simples – até surradas, diria, - se considerarmos seu poder aquisitivo, pois detestava comprar roupas novas. Às vezes mostrava-se arrependido de ter adquirido um apartamento tão caro.

Numa viagem a serviço, envolveu-se com uma colega de outra filial e teve relações sexuais com ela uma única vez, de forma intempestiva. Apaixonou-se. Esse fato lhe acarretou grande dose de culpa, segundo afirmava. Em outros momentos, falava do assunto como se houvesse conquistado um troféu; começara a namorar a esposa quando muito jovem e até então só se relacionara com ela. No retorno da viagem, fez exames de sangue para verificar se estava contaminado por alguma doença.

Muito inteligente, discorria sobre filosofia e religião, temas que resolviam suas pendências nas noites de insônia. Dava-se o diagnóstico de “depressão”.

? ? ?

Não sei como a história de Fábio termina, pois ele já não é meu paciente há muito tempo. A lembrança de suas sessões, entretanto, remete ao que temos lido sobre a neurose obsessiva.

Se uma vez já se disse que a histérica é “bipolar”, em certo sentido o neurótico obsessivo também o é. Freud nos fala dos grupos de sintoma de tendências opostas: proibições, precauções e expiação, de um lado – satisfações substitutivas do outro. Seriam exemplos disso o “caso” fora do casamento versus a culpa e os exames posteriores? Teriam tais exames caráter anulatório?

Presente está a transgressão da Lei, em nome do controle onipresente do objeto – troféu conquistado, como se vê pelo tom de sua fala ao narrar a escapadela.

Mencionarei como formação reativa a cordialidade, às vezes excessiva, defesa contra a agressividade subjacente.

Fábio não competia, pois não podia perder. A perda conduziria a uma falha em sua imagem narcísica. Os comentários dos subordinados sobre sua simplicidade me fizeram lembrar de uma piadinha narrada em um texto sobre narcisismo: “O sujeito era tão humilde, tão humilde, que se gabava de ser o homem mais humilde do mundo”.

Onipotente, o pensamento de Fábio se valia de fundamentos religiosos e filosóficos.

A “depressão” possivelmente sinalizava a angústia diante do conflito entre o isso e o supereu despótico, que tentava mediar racionalmente. Sem contar os inevitáveis golpes narcísicos que a vida lhe proporcionava ...

Vale citar trecho do artigo A neurose obsessiva, de Lúcia Alves Mees[1]:

“Devido à regressão, o superego é severo, e a angústia se deve à hostilidade do mesmo. O eu teme o superego pelo castigo de castração que ele carrega. Pois, da mesma forma que o pai se tornou despersonalizado sob a forma do superego, o medo da castração se transformou em angústia social ou moral indefinida (Freud, 1926) (...) Para Lacan, o temor, do qual a angústia é sinal, é também o da castração, mas especificamente no que esta se relaciona com o desejo do Outro: ‘a função angustiante do desejo do Outro está ligada ao fato de que não se sabe qual objeto a se é para este desejo’.”.

Pergunto-me se não comprar roupas seria um sinal da avareza própria do “caráter anal”. Arrepender-se de ter gasto demais na compra do apartamento não apontaria no mesmo sentido? Ou decorreria esse fato de haver obtido o domínio do gozo, como enfatiza Joel Dor?

Com relação à regra fundamental, nada menos (ou mais?) fundamental. Para ele, explicar era essencial. Tinha resposta pra tudo. A partir do seu primeiro dito: racional (“Sou dominador” – eu confesso, eu cedo...), mas ambivalente: “Me aguarde”.

[1] Publicado na Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, nº 17, 1999.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

Por Luigi

Amélie foi marcada pelo distanciamento desde muito cedo. Seu pai, um ex-médico militar, jamais a tocava ou abraçava, exceto quando realizava os exames médicos de rotina. A emoção era tanta que o coração de Amélie disparava sempre que ele a auscultava, o que o levou à conclusão de que ela tinha mesmo um problema de coração.

Longe da escola em decorrência disso, teve sua mãe como sua professora. Era uma mulher rígida, que odiava ser tocada por uma pessoa não conhecida, como por exemplo ao fazer compras na feira. Tinha grande prazer em esvaziar sua bolsa, limpá-la cuidadosamente, e em seguida recolocar item a item dentro dela.

Seu pai também tinha hábitos curiosos: incomodava-se com a sensação de seu calção de banho grudado ao corpo após sair da piscina; constrangia-se fortemente ao utilizar o mictório ao lado de algum outro já ocupado; e adorava, todos os fins de semana, esvaziar sua caixa de ferramentas, limpá-la, cuidadosamente limpar todas as ferramentas e finalmente reorganizá-las na caixa.

Amélie passava a maior parte do tempo brincando sozinha e fantasiando sobre eventos da vizinhança, como imaginar que uma vizinha, que estava em coma, estaria de fato dormindo o sono de toda a vida para poder acordar em seguida e não precisar mais dormir. Um dia ganhou de presente de sua mãe uma câmera fotográfica, em troca de um peixe que havia sido jogado no rio porque a mãe não mais suportava seu desespero frente às tendências suicidas do peixe.

Com a câmera, passeou pela vizinhança retratando o que estivesse ao alcance. Dias depois, ao presenciar uma colisão de dois automóveis com a câmera em mãos, Amélie escutou de um vizinho: "viu, menina, o que fez a sua câmera?". Aterrorizada pela idéia de que cada foto que tirou tivesse causado uma catástrofe, Amélie se recolheu em casa, consumida pela culpa. Passou horas diante dos telejornais, acompanhando desgraças pelo mundo afora: incêndios, guerras, mais acidentes. Tudo culpa sua. Estava com apenas seis anos. Depois de descobrir que sua câmera não era a causadora de tragédias, resolve se vingar do vizinho, o que fazia sentada no telhado desconectando sua antena de TV durante os jogos de futebol.

Em uma visita à igreja com sua mãe, Amélie presenciou uma tragédia. Sua mãe foi atingida por uma suicida que saltara da torre da igreja no momento em que saiam de lá, de mãos dadas, e faleceu. Distante agora de sua mãe e na companhia de seu pai em luto infindável, restou-lhe apenas esperar crescer para finalmente seguir sua vida sozinha.

Já na vida adulta, aos vinte e dois anos, Amélie trabalha em um café como garçonete e visita o pai regularmente. Aposentado, ele não vive muito: nunca viaja, cuida da casa e continua vinculado à mãe. Auto-centrado, em suas conversas com Amélie ele não a escuta. As perguntas que ela faz em um diálogo corriqueiro têm o silêncio ou outro assunto do interesse dele como resposta.

Amélie havia tido apenas dois namorados, e suas experiências não haviam sido o que se pudesse descrever como satisfatórias. Cuida da vida de todos, e essa é sua maneira de levar a vida. Fantasia que é uma justiceira, uma espécie de Zorro feminino, ou uma mulher muito boa, que seria reconhecida ao morrer por sua bondade e doação aos mais necessitados. Entra na vida dos outros, vez ou outra, com grande obstinação e criatividade, como indicam os exemplos a seguir:
  • encontrou certa vez uma caixa de pequenos brinquedos escondida. Havia sido deixada lá há anos por um antigo morador, cujo sobrenome ela consegue descobrir. Em seguida, percorre a cidade buscando falar com todos os que tinham aquele sobrenome, até que o encontra. Entretanto, ela não devolve simplesmente a caixa, falando diretamente com ele. Opta por acompanhar seus hábitos e constrói um pequeno jogo para que ele encontre a caixa, como que milagrosamente.
  • incomodada com a forma mal-educada e grosseira com que o dono da quitanda trata seu único funcionário, ela aproveita uma coincidência em que consegue a chave de seu apartamento e, conhecendo seus horários, entra em sua casa para deixar uma série de pequenas surpresas punitivas para ele.
  • já que seu pai levava uma vida muito fechada, ela decide roubar-lhe um anão de jardim e consegue que uma mulher que fará uma viagem por várias cidades do mundo o leve, tire fotos dele em um ponto turístico de cada cidade e envie as fotos diretamente ao seu pai, como se tivessem sido enviadas pelo próprio anão, que decidiu viajar. Com isso, cria em seu pai uma dúvida grande o suficiente para motivá-lo a finalmente viajar.
  • de uma vizinha, cujo marido havia morrido há 18 anos e cuja dúvida sobre seu amor permanecia preenchendo-lhe a vida, rouba-lhe as cartas que havia recebido dele e, recortando minuciosamente algumas palavras, compôe uma outra que envia pelo correio como se tivesse sido enviada por ele há 18 anos, perdida em um acidente de avião nos andes e reencontrada agora, após uma expedição ter se deparado com os destroços do acidente. Nesta carta, deixa claro o quanto ele a amava.

Seguia assim Amélie, reconfortando alguns e punindo outros, mas sempre distante de si mesma e de seu próprio desejo. Sempre interagindo profundamente com as pessoas através de jogos à distância.

É ao conhecer um rapaz, Nino, na estação do metrô que começa em sua vida um grande turbilhão. Apaixona-se por ele, mas é incapaz de se aproximar. Em um evento, ele esquece na estação um álbum de fotos, que ela tenta devolver mas não o alcança. Vê as fotos uma a uma, por muito tempo. Imagina mil coisas. O álbum é de fato uma coleção de fotos rasgadas ou amassadas e jogadas fora, que foram coletadas por Nino debaixo das máquinas de fotos espalhadas pela cidade. É uma coleção. Aquilo a faz sentir-se parecida com ele de alguma forma. Pensa sozinha: "isso é que é álbum de família".

Em busca de recuperar o álbum, Nino deixa anúncios pela estação de metrô. Amélie vê o anúncio e leva dias pensando se liga ou não e em qual seria a melhor maneira de fazê-lo, "o melhor estratagema a adotar" (palavras suas). Por fim, incentivada por um vizinho confidente, decide ligar.

A sequência que se desenrola daí em diante é surpreendente por sua perspicácia: Amélie prepara uma forma única de devolver o álbum, marcando como ele um encontro em um dado local e hora. Prepara um jogo que ele deve seguir, com vários passos que ela monitora à distância. Finalmente, com o álbum já nas mãos dele, ela liga indicando uma página do álbum. Nesta página, Nino encontra alguns recortes de fotos dela, onde se lê em conjunto uma pergunta: "Quer me conhecer"?

Sua relação com Nino vai se estabelecendo assim, através de jogos e recados deixados na estação de metrô. Um dia finalmente eles marcam um encontro no café onde ela trabalha. Chegando lá, ele a reconhece após breve tempo e, ao falar com ela, ela nega que seja a pessoa que ele procura. Não consegue estar ali. Angustiada, trava uma luta entre o medo de relacionar-se e o desejo de fazê-lo. Antes que ele se vá, desistindo, ela escreve um novo papel e pede a uma colega que deixe no bolso dele, dando início a uma nova e longa sequência. É só depois desta sequência que ele finalmente aparece em sua casa. Ela não abre a porta e não fala com ele. Ali, distantes não mais de meio metro um do outro, ele só fala com ela através de um papel passado por baixo da porta. Ele vai embora mas volta, pouco depois que ela decide sair atrás dele, após ouvir um importate conselho do vizinho confidente. Eles se encontram justamente na porta, quando ela a abre. Quando ele começa a falar, ela toca sua boca com o dedo, num sinal de pedido de silêncio. Não falam mais nada, apenas entregam-se um ao outro. Começam um namoro daí em diante.

Nota-se na história de Amélie esta marca da vida à distância, como de dentro de uma redoma de vidro. Em seus diálogos com o vizinho confidente, não falam dela, mas de uma moça jovem, presente em um de seus quadros. É assim, em terceira pessoa, que eles conversam sobre ela e que ele lhe dá seus conselhos. Ironicamente, o vizinho possui uma doença congênita que torna seus ossos frágeis como vidro e, por isso, não pode sair de casa. Seu conselho mais importante, que lhe causa algum insight sobre sua própria situação, e a motiva a ir atrás de Nino, foi: "Amélie, seus ossos não são de vidro como os meus. Entregue-se à vida antes que seu coração seque. Você dá conta".

Embora não seja teimosa, Amélie, mostra grande obstinação e capacidade intelectual quando elabora os diversos jogos com seu pai, com vizinhos e com Nino. É parcimoniosa e bondosa com os outros. Saudável fisicamente, não apresenta nenhum sintoma de conversão histérica e sua sexualidade, em um sentido estrito, é ausente. Embora viva fantasiando, suas fantasias não tem para ela um caráter de realidade. Não delira, apenas vive à distância, com enorme riqueza de experiências no mundo dos pensamentos, mas uma pobre vida no mundo real.

Com este contexto em mente, pergunto: há sinais suficientes para que possamos acreditar que a estrutura de Amélie é Obsessiva? Além disso, podemos falar em um caráter de passagem de pais para filhos de uma neurose?

terça-feira, 20 de maio de 2008

O Cheiro do Ralo

Tema: Filme “O Cheiro do Ralo”
por Patrícia Porcaro

O cheiro do Ralo, nos apresenta um personagem interessante que tem como caracterísca marcante uma enorme dificuldade de lidar com o afeto. À luz da psicanálise, podemos pensar na forma do sujeito neurótico obsessivo operar, sua forma de gozo, sua relação com o desejo, a temática da vida e da morte e outras estratégias que esse sujeito utiliza para se defender, principalmente da falta.

Com Freud, aprendemos que a constituição do sujeito se dá de uma forma não linear, dentro de um critério não-desenvolvimentista, e sim, através de fases que tem um movimento de progressão/ regressão, e assim, dentro desse eixo, Freud descreveu o carater anal, tão particular desse tipo clínico. Para Freud, o cocô é o primeiro objeto que a criança perde do próprio corpo e está diretamente ligado a uma demanda materna de que a criança retenha ou solte o objeto. Por esse viés, podemos pensar na ambivalência, na dúvida e, também, na divisão do sujeito em se identificar com o Todo, o Senhor, o Outro ou com o nada, com a merda, com o resto. Essa lógica do tudo ou nada é um ponto que alinhava com a temática da vida e da morte. Para estar vivo, o obsessivo precisa romper com o campo do Outro, o que, muitas vezes, pode sair do campo imaginário e tomar um sentido de matar esse Outro no real. Assim, abre a dimensão da culpa.
Em Lacan, as fases da constituição do sujeito são circulares, e, também, não evolutivas. O objeto faz um circuito circular entre as fases oral, anal, fálica, escópica e voz, onde ele marca uma correspondência das fases anal e escópica como pontos de gozo prevalentes do neurótico obsessivo. A criança, por meio do olhar vai marcando as relações com os outros, surgindo daí a dualidade – potência/impotência. Potência nas idéias mágicas compulsivas. No nível escópico o objeto é preservado de uma forma imaginária: aparece a crença no Deus todo poderoso ou no diabo todo poderoso. A potência do Outro e sua própria impotência.

No filme, a forma de gozo de Lourenço aparece dentro da dimensão anal e escópica. O ralo, enquanto um buraco, uma falta, o incomoda o tempo todo e ele tenta se justificar criando um distanciamento entre o cheiro que sai do ralo e o cheiro dele, diz: “O cheiro é do ralo…”. Apesar de se sentir facinado com o cheiro do ralo ele tenta tampá-lo de todas as formas, até mesmo cimentando-o. Quanto mais ele tampa, mais o cheiro de merda o invade.
Assim, ele faz uma disjunção elegendo o ralo como o lugar do inferno e a bunda da moça da lanchonete como o paraiso. Diz: “Os buracos são portais do inferno. É por alí que eles ficam observando”; “O olho do dólar é o olho de Deus. Esse olho é do outro”. Mas, mais uma vez, esses lugares extremos estão muito próximos e ele se depara com essa ambivalência.

A perda, a libra de carne, como diz Lacan, o preço que todo sujeito deve pagar para se inscrever na norma fálica Lourenço não quer saber de pagar. Ele não quer se envolver afetivamente. Ele quer pagar um preço para ver a bunda ,e não, casar com a bunda. Trocar afeto, segundo ele, representa perder poder, sair do comando, do controle. Quando se deparou com a perda, a saida da moça da lanchonete, ele chega no seu estabelecimento e agride o cara que vendia relógios até a morte. Para lidar com perdas menos significativas,tenta construir um sentido culpabilizando alguém. Para ver a bunda, o preço a pagar é comer o lixo da comida da lanchonete. Daí, ele produz a merda que faz o ralo cheirar. Ou, “a culpa é do olho, ele dá azar!”

O isolamento afetivo aparece na troca de nomes da empregada, em só reconhecer a moça da lanchonete pela bunda e não perceber a mudança das moças pelo rosto, a maneira de falar da mãe, a forma como ele recebe as pessoas e compra seus objetos – não querendo saber das histórias; ao mesmo tempo, cria uma história sobre seu pai que nunca viu ou conheceu. Ele “monta” um pai com um olho, com uma perna e com uma história. É o pai Frankstein.
Finalmente, quando vai poder ver a bunda, tocar a bunda, esse objeto, até então, falicizado, Lourenço chora profundamente e diz: “Mais uma coisa a bunda se torna”. A bunda se torna mais um objeto sem valor afetivo que entra na sua série metonímica. Porém, me parece que nessa equação, algo alí se perde, alguma morte operou.
DISCUSSÃO:
Lourenço é o produto de uma “transa” única entre seus pais. Parece que ele se identifica ao objeto “resto”, a uma “merda”. O seu maior medo é que as pessoas descubram a sua origem, o seu cheiro. Dessa forma, como Lourenço poderia ter se servido desse pai, no sentido de fazer uma amarração menos precária?

sábado, 26 de abril de 2008

Dom

Em nossos últimos encontros falamos sobre os textos Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens(1910) e Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor (1912), ambos de Freud.

Ocorreu-me a lembrança, nesta semana, do filme Dom, que conta a história de Bento, carioca brasileiro que havia sido nomeado por seus pais em homenagem ao personagem homônimo de Dom Casmurro.

O filme se desenvolve em torno do relacionamento de Bento com Ana, uma paixão de infância que ele reencontra anos depois. Ana, mulher bonita e inteligente, é dançarina e quer ser atriz. O reencontro dos dois se dá por acaso. Eles haviam passado longos anos sem se verem depois que Bento se mudou com a família para São Paulo, ainda criança. Após o reencontro, o contato entre eles se torna muito intenso e ambos terminam os namoros que vinham vivendo até ali.

Algumas marcas do relacionamento Bento-Ana fizeram uma ponte aos textos freudianos, a saber:
  • quando decidem se casar, Bento faz a Ana uma espécie de promessa, "fazê-la a mulher mais feliz do mundo". Ela muda com ele para São Paulo e abre mão de sua vida para acompanhá-lo. Ele não deixa que lhe falte nada e, no início, o casamento é repleto de felicidade para ambos.
  • com o tempo, Ana passa a sentir falta de ter vida própria, de retomar seu projeto de dançarina e atriz. Bento se opõe continuamente. Eles têm um filho e Bento não quer que Ana volte a trabalhar. Não suporta vê-la desejar. Simplesmente não entende o que pode lhe faltar que a motive a buscar um trabalho, já que "ele lhe dá tudo". Racionaliza recorrendo à importância de a mãe estar próxima e cuidar de seu filho. Ana avança, hesitante.
  • Miguel, amigo de ambos e padrinho de seu filho, é dono de uma agência de publicidade e, diante do crescente contato com Ana, incentiva-a a buscar aquilo que deseja e retomar sua vida profissional. Uma oportunidade surge e Miguel a convida para atuar em um filme que sua agência iria gravar. A aproximação de Ana e Miguel, aliada ao incentivo e suporte que ele lhe oferece, despertam o ciúmes e a desconfiança de Bento que desenvolve uma forte obsessão: a de que Ana e Miguel estão tendo ou tiveram um caso e que, talvez, o filho não seja dele mas sim de Miguel.

Notam-se no comportamente de Bento a dificuldade típica do neurótico obsessivo diante de sua mulher desejante e seu interesse em tê-la em casa como um belo troféu, sem vida própria, distante dos olhos de todos os outros homens. Como um "belo carro esporte", nas palavras de Freud.

Além disso, a existência para o obsessivo de uma terceira pessoa na relação, a presença do fantasma da traição e a obsessão que consome grandes quantidades de energia psíquica, também descritos por Freud, ganham mais uma encarnação nesta ficção de Moacyr Góes.

Bento, que havia crescido ouvindo a causa de sua nomeação referente ao personagem de Dom Casmurro, culmina então por reviver a história do mesmo personagem.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Caso Isabella: todo mundo desconfia de si mesmo

Jorge Forbes*

Quem matou Isabella? Essa pergunta atravessou o país, na semana passada, em todas as casas, em todos os cantos. Quem pode matar uma menina linda de cinco anos, sorridente, gaiata, livre no corpo e no olhar que olha a câmera de frente? Quem?

Matar uma menina como Isabella é ferir a última das garantias de nossa vida social. Há pouco tempo ninguém roubava uma igreja, o ladrão teria medo da ira dos céus; também não se batia carteira de velhinho nem bolsa de velhinha; seria ferir o código da malandragem; não se batia em mulher. Imagine! Isso passou, a sociedade foi ficando cada vez mais acuada, amedrontada, escondida em carros esfumaçados e blindados, fechada em prédios cheios de alarmes, como o de Isabella. Oh, "London, London", que triste canção. Tanta proteção para nada, ela morreu.

Quando um crime é cometido por uma razão aparente: fome, vingança, sobrevivência, de certa forma se compreende, embora não se aceite nem se dê razão. Crimes desse tipo são bem classificados. Neles, a diferença do criminoso com o homem comum e sua situação de vida são, em grande parte, patentes.

Agora, quando a situação de um crime reproduz o cotidiano, todo mundo passa a desconfiar de si mesmo.

Poderia ter acontecido com minha filha, ou, pior, será que eu poderia cometer uma atrocidade dessas, eu que não tenho nenhuma história pregressa que me leve a desconfiar de mim mesmo? Pode sim, um criminoso não é criminoso até que cometa um crime, caso contrário, vamos começar a inventar disposições genéticas perigosíssimas e construir berçários-cadeia. 'Vá buscar o bebê da cela três para mamar.'

No caso de Isabella, ainda tem o detalhe da madrasta. Quantas mulheres recém-divorciadas encheram-se de razão nesses dias para proibir o ex-marido de passar o fim de semana com o filho e a nova namorada?

Ninguém, fantasiosamente, gosta de madrasta nem de sogra. Ninguém gosta de intermediários de amor, de algo ou de alguém que lembre que entre o amante e a amada existe uma barreira. Pobres madrastas, pobres sogras. Elas levam a culpa de algo que está na essência do humano: a falta de garantia dos nossos laços afetivos.

A cena da família unida no supermercado de sábado, tranqüila, carinhosa, de chinelão, fazendo do carrinho de compras uma Ferrari para as crianças, não poderia servir de melhor ilustração para um cartão-postal de felicidade. Qual o quê. Poucas horas depois, o trágico, o sem solução. Voltamos à cena, uma, duas, várias vezes; ela bateu o recorde de audiência dos sites. Tentamos detectar o espectro da desgraça rondando aquele passeio na escada rolante, buscamos avidamente algum sinal que nos proteja, que não faça com que fiquemos todos paranóicos em cada momento feliz.

Mal, oh mal, onde está você? Será que você está na ausência das declarações do pai? Ou será que se disfarça na beleza jovem da madrasta sem lágrimas; ou não, vai ver que você se intromete na marreta do pedreiro, aquele Pedro que faz casa para o outro bem morar, enquanto ele mora na marmita, sim, vai ver que foi ele.

Cada um faz uma hipótese, sempre baseada na sua visão de mundo e na maneira pela qual reagiria em uma situação dessas. Rapidamente os falastrões investigadores das razões alheias se dão conta de que as emoções humanas são bem mais complexas que o bom senso. Pode um pai não chorar no momento seguinte da morte de sua filha? Claro que pode, quem nunca teve um branco na vida, um impacto tão grande que o mundo vira paisagem branca? O não-choro, por si só, não incrimina o pai, como, ao contrário, o choro de Suzane Richthofen, no enterro de seus pais, não a inocentava, como não a inocentou.

Freud aconselhava a, se invocarmos os demônios, que ao menos conversemos com eles, antes de despachá-los de volta. Os demônios estão aí; como é de praxe, eles aparecem na morte de um anjo. Daqui a pouco vamos mandá-los de volta às suas profundezas, as quais gostamos de ignorar. O momento da verdade dura é agora, que melhor será se durar mais que um só momento. Vamos despachar os demônios assim que ficar confirmado, jurado e sacramentado o nome do assassino. Todos respirarão aliviados ao saber. Ufa! Não fui eu. Foi ele. Só podia ter sido ele, como eu não pude entender isso antes?

E a festa voltará. Não há garantia para o frágil laço social humano, dizia. Bichos são sempre iguais. Homens nem sempre são homens, não há um piloto automático de humanidade. Esse é o motivo de viver no princípio de responsabilidade que não ausenta ninguém da existência coletiva. Somos responsáveis por Isabella? Sim, é o que isso quer dizer. Uma responsabilidade jurídica condenará o criminoso, mas o princípio ético da responsabilidade humana, diferente da estritamente penal, obrigará todos nós a prosseguirmos com esta marca em nossas vidas. Seu nome? Isabella, uma 'isola bella', uma ilha bela.

*Jorge Forbes, 56, psicanalista, é presidente do Ipla (Instituto da Psicanálise Lacaniana) e diretor da Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Bem-vindo ao nosso blog!

O Rato dos Homens é um blog criado por um grupo de estudos em psicanálise do IEPSI, com o objetivo de publicar suas produções sobre o tema Neurose Obsessiva.

Que o blog possa tornar nosso caminho ainda mais enriquecedor!