quinta-feira, 24 de abril de 2008

Caso Isabella: todo mundo desconfia de si mesmo

Jorge Forbes*

Quem matou Isabella? Essa pergunta atravessou o país, na semana passada, em todas as casas, em todos os cantos. Quem pode matar uma menina linda de cinco anos, sorridente, gaiata, livre no corpo e no olhar que olha a câmera de frente? Quem?

Matar uma menina como Isabella é ferir a última das garantias de nossa vida social. Há pouco tempo ninguém roubava uma igreja, o ladrão teria medo da ira dos céus; também não se batia carteira de velhinho nem bolsa de velhinha; seria ferir o código da malandragem; não se batia em mulher. Imagine! Isso passou, a sociedade foi ficando cada vez mais acuada, amedrontada, escondida em carros esfumaçados e blindados, fechada em prédios cheios de alarmes, como o de Isabella. Oh, "London, London", que triste canção. Tanta proteção para nada, ela morreu.

Quando um crime é cometido por uma razão aparente: fome, vingança, sobrevivência, de certa forma se compreende, embora não se aceite nem se dê razão. Crimes desse tipo são bem classificados. Neles, a diferença do criminoso com o homem comum e sua situação de vida são, em grande parte, patentes.

Agora, quando a situação de um crime reproduz o cotidiano, todo mundo passa a desconfiar de si mesmo.

Poderia ter acontecido com minha filha, ou, pior, será que eu poderia cometer uma atrocidade dessas, eu que não tenho nenhuma história pregressa que me leve a desconfiar de mim mesmo? Pode sim, um criminoso não é criminoso até que cometa um crime, caso contrário, vamos começar a inventar disposições genéticas perigosíssimas e construir berçários-cadeia. 'Vá buscar o bebê da cela três para mamar.'

No caso de Isabella, ainda tem o detalhe da madrasta. Quantas mulheres recém-divorciadas encheram-se de razão nesses dias para proibir o ex-marido de passar o fim de semana com o filho e a nova namorada?

Ninguém, fantasiosamente, gosta de madrasta nem de sogra. Ninguém gosta de intermediários de amor, de algo ou de alguém que lembre que entre o amante e a amada existe uma barreira. Pobres madrastas, pobres sogras. Elas levam a culpa de algo que está na essência do humano: a falta de garantia dos nossos laços afetivos.

A cena da família unida no supermercado de sábado, tranqüila, carinhosa, de chinelão, fazendo do carrinho de compras uma Ferrari para as crianças, não poderia servir de melhor ilustração para um cartão-postal de felicidade. Qual o quê. Poucas horas depois, o trágico, o sem solução. Voltamos à cena, uma, duas, várias vezes; ela bateu o recorde de audiência dos sites. Tentamos detectar o espectro da desgraça rondando aquele passeio na escada rolante, buscamos avidamente algum sinal que nos proteja, que não faça com que fiquemos todos paranóicos em cada momento feliz.

Mal, oh mal, onde está você? Será que você está na ausência das declarações do pai? Ou será que se disfarça na beleza jovem da madrasta sem lágrimas; ou não, vai ver que você se intromete na marreta do pedreiro, aquele Pedro que faz casa para o outro bem morar, enquanto ele mora na marmita, sim, vai ver que foi ele.

Cada um faz uma hipótese, sempre baseada na sua visão de mundo e na maneira pela qual reagiria em uma situação dessas. Rapidamente os falastrões investigadores das razões alheias se dão conta de que as emoções humanas são bem mais complexas que o bom senso. Pode um pai não chorar no momento seguinte da morte de sua filha? Claro que pode, quem nunca teve um branco na vida, um impacto tão grande que o mundo vira paisagem branca? O não-choro, por si só, não incrimina o pai, como, ao contrário, o choro de Suzane Richthofen, no enterro de seus pais, não a inocentava, como não a inocentou.

Freud aconselhava a, se invocarmos os demônios, que ao menos conversemos com eles, antes de despachá-los de volta. Os demônios estão aí; como é de praxe, eles aparecem na morte de um anjo. Daqui a pouco vamos mandá-los de volta às suas profundezas, as quais gostamos de ignorar. O momento da verdade dura é agora, que melhor será se durar mais que um só momento. Vamos despachar os demônios assim que ficar confirmado, jurado e sacramentado o nome do assassino. Todos respirarão aliviados ao saber. Ufa! Não fui eu. Foi ele. Só podia ter sido ele, como eu não pude entender isso antes?

E a festa voltará. Não há garantia para o frágil laço social humano, dizia. Bichos são sempre iguais. Homens nem sempre são homens, não há um piloto automático de humanidade. Esse é o motivo de viver no princípio de responsabilidade que não ausenta ninguém da existência coletiva. Somos responsáveis por Isabella? Sim, é o que isso quer dizer. Uma responsabilidade jurídica condenará o criminoso, mas o princípio ético da responsabilidade humana, diferente da estritamente penal, obrigará todos nós a prosseguirmos com esta marca em nossas vidas. Seu nome? Isabella, uma 'isola bella', uma ilha bela.

*Jorge Forbes, 56, psicanalista, é presidente do Ipla (Instituto da Psicanálise Lacaniana) e diretor da Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.

5 comentários:

Yolan disse...

Porque achei esse texto do Forbes pertinente ao nosso estudo da Neurose obsessiva? Ele trata de vários pontos, mas o que achei que para nós seria pertinente, é o ponto que ele fala que diante este crime “todo mundo passa a desconfiar de si mesmo. Poderia ter acontecido com minha filha, ou, pior, será que eu poderia cometer uma atrocidade dessas, eu que não tenho nenhuma história pregressa que me leve a desconfiar de mim mesmo?”

Freud, em Totem e Tabu, quando trata da onipotência do pensamento, diz que neurótico obsessivo é oprimido por culpa que seria adequada para um grande assassino embora de sua infância em diante tenha-se comportado com o mais escrupuloso membro da sociedade. Para ele a culpa deve-se a intensos desejos de morte inconscientes. Em função deles constantemente terá medo de expressar desejos malignos, como se sua expressão conduzisse à sua realização..
Já no texto do Homem dos ratos, Freud diz que ele se censurou por não estar presente na hora da morte do pai, e que 18 m depois da morte , começou a se tratar de criminoso. Por quê tanta culpa? Freud explica: há uma mésalliance (falsa conexão) entre afeto e seu conteúdo ideativo. O Leigo poderia dizer que auto-censura é falsa, mas para o analista, . O afeto se justifica. Mas, o sentimento de culpa pertence a outro contexto / Inconsciente. O conteúdo ideativo é conhecido graças à conexão falsa (Por isso: os processos lógicos não funcionam para combater idéia atormentadora).

Não é interessante conectar esse fragmento do texto de Forbes, com o sentimento de culpa, o sentir-se criminoso do obsessivo?
Yolanda

Luigi disse...

Muito legal, Yolanda! Gostei mesmo!
Uma aula!

Danny Brant disse...

Excelente o texto!
Muito interessante pensar esse sentimento de culpa que surge em cada um de nós quando uma "atrocidade" dessas acontece. Afinal, quem não "assassina" uma "Isabella" por dia em nossas vidas? O que se mata quando algo ou alguém morre? Já dizia o gato de botas no conto Alice no país das maravilhas: "eu sou louco, você é louca, todos nós somos loucos... caso contrário, não teríamos chegado até aqui..."

Danny Brant disse...

Pessoal,
segue em anexo mais um artigo sobre o caso Isabella.
Folha de São Paulo, Contardo Calligaris.
Até,
Daniela Brant




Comoção pela morte de Isabella
A tragédia nos lembra afetos dolorosos que regram nossa maneira 'moderna' de casar
HOJE, QUARTA-FEIRA, quando acabo esta coluna, não conhecemos os eventos que levaram à morte de Isabella Nardoni; só sabemos que a menina, de cinco anos, foi assassinada, intencionalmente ou não, enquanto estava na custódia do pai e da madrasta. E conhecemos um pouco a história da família: a mãe e o pai de Isabella não chegaram a se juntar -foi um romance adolescente que acabou antes de Isabella nascer. O pai tem dois filhos pequenos com sua mulher atual.
É uma situação trivial: a pensão mensal, as visitas, o padrasto ou a madrasta, os meio-irmãos etc. Mas a banalidade dessa situação não deveria disfarçar o emaranhado de afetos dolorosos que ela produz -afetos que muitos vivem e que todos preferimos esquecer.

Não sei se esses afetos são responsáveis pela morte de Isabella. Mas talvez eles sejam responsáveis pela extraordinária comoção produzida pela sua morte. Como assim?
A morte violenta de uma criança nos fere a todos: é como se, ao mesmo tempo, alguém nos arrancasse um pedaço de nosso próprio futuro e destruísse a fantasia nostálgica da infância, que sempre cultivamos, mesmo que o primeiro período de nossa vida tenha sido infeliz.

Mas a história de Isabella nos comove também por outra razão: as tentativas de 'explicar' o acontecido evocam, inevitavelmente, as dificuldades de nossa maneira 'moderna' de casar.

São dificuldades nas quais, em geral, preferimos evitar de pensar.

É comum que o marido ou a mulher (às vezes, ambos) levem para o casamento filhos que são frutos de uma relação anterior. Espera-se que isso aconteça sem complicação: afinal, se descasamos e casamos por amor, por que o mesmo amor não reinaria pelo lar todo? Pois é, o amor é uma coisa complicada. Exemplos.

A rivalidade, que sempre existe entre irmãos, vinga entre enteados e meio-irmãos. E vinga redobrada, justamente por ser mais inconfessável do que a rivalidade entre irmãos -por ser silenciosa, reprimida pelo esforço geral de compor uma nova família ideal, em que todos os integrantes se amariam.

Na nova família, à primeira vista, o homem convive com seus enteados melhor do que a mulher. Não é nenhum milagre do 'instinto' paterno: o homem encontra uma satisfação narcisista no exercício da paternidade. Ele, aliás, curte ser e se sentir amado por suas qualidades 'paternas'. Pare ele, saber ser pai de filhos e enteados faz parte de uma virilidade que ele quer que seja reconhecida e festejada pela mulher.

Mas cuidado: a encenação da paternidade, embora às vezes espalhafatosa, não resiste à pressão da culpa de dar para seus filhos de sangue menos do que para seus enteados.

Essa culpa, envergonhada e reprimida, é inevitável, porque há uma coisa que o homem, na grande maioria dos casos, dá mais aos enteados do que aos filhos: sua própria presença no lar.

A mulher, ao contrário, vive quase sempre uma rivalidade dramática com seus enteados: compete com eles como se ela fosse mais uma filha. Para a mulher, o enteado ou a enteada não usurpam o lugar dos filhos que ela trouxe de um casamento anterior, nem o lugar dos filhos que nasceram no novo casamento: eles ameaçam usurpar o próprio lugar dela. Essa rivalidade, escondida, expressa-se de maneiras travessas: por exemplo, numa crítica assídua das manifestações do afeto paterno do homem para com o filho ou a filha dele. Ou seja, para não admitir um ciúme envergonhado do enteado, a mulher censura o 'excesso' dos sentimentos paternos do marido. Esse, criticado como pai, sente-se diminuído como homem. O desastre está às portas.

São apenas exemplos. O casamento 'moderno' é um nó de afetos reprimidos, uma convivência explosiva que aposta no amor do casal como se fosse remédio para todos os males.

Não se trata de condenar a idéia de que seja possível refazer sua vida com outro ou outra e, nessa ocasião, levar consigo os filhos dos casamentos anteriores. Mas seria melhor que a gente se engajasse nesses projetos sem a ilusão de que os bons sentimentos prevalecerão por conta própria. Seria melhor, para começar, que nossas disposições menos nobres, em vez de silenciadas e reprimidas, fossem faladas, explicitadas. Isso, para evitar que, de vez em quando, a trágica morte de uma menina nos lembre, por um dia ou uma semana, que a vida das famílias 'modernas' é muito mais difícil do que parece.

ccalligari@uol.com.br

Ciolete disse...

Esse texto do Forbes é muito bom e interessante!!!