Tema: Filme “O Cheiro do Ralo”
por Patrícia Porcaro
por Patrícia Porcaro
O cheiro do Ralo, nos apresenta um personagem interessante que tem como caracterísca marcante uma enorme dificuldade de lidar com o afeto. À luz da psicanálise, podemos pensar na forma do sujeito neurótico obsessivo operar, sua forma de gozo, sua relação com o desejo, a temática da vida e da morte e outras estratégias que esse sujeito utiliza para se defender, principalmente da falta.
Com Freud, aprendemos que a constituição do sujeito se dá de uma forma não linear, dentro de um critério não-desenvolvimentista, e sim, através de fases que tem um movimento de progressão/ regressão, e assim, dentro desse eixo, Freud descreveu o carater anal, tão particular desse tipo clínico. Para Freud, o cocô é o primeiro objeto que a criança perde do próprio corpo e está diretamente ligado a uma demanda materna de que a criança retenha ou solte o objeto. Por esse viés, podemos pensar na ambivalência, na dúvida e, também, na divisão do sujeito em se identificar com o Todo, o Senhor, o Outro ou com o nada, com a merda, com o resto. Essa lógica do tudo ou nada é um ponto que alinhava com a temática da vida e da morte. Para estar vivo, o obsessivo precisa romper com o campo do Outro, o que, muitas vezes, pode sair do campo imaginário e tomar um sentido de matar esse Outro no real. Assim, abre a dimensão da culpa.
Em Lacan, as fases da constituição do sujeito são circulares, e, também, não evolutivas. O objeto faz um circuito circular entre as fases oral, anal, fálica, escópica e voz, onde ele marca uma correspondência das fases anal e escópica como pontos de gozo prevalentes do neurótico obsessivo. A criança, por meio do olhar vai marcando as relações com os outros, surgindo daí a dualidade – potência/impotência. Potência nas idéias mágicas compulsivas. No nível escópico o objeto é preservado de uma forma imaginária: aparece a crença no Deus todo poderoso ou no diabo todo poderoso. A potência do Outro e sua própria impotência.
No filme, a forma de gozo de Lourenço aparece dentro da dimensão anal e escópica. O ralo, enquanto um buraco, uma falta, o incomoda o tempo todo e ele tenta se justificar criando um distanciamento entre o cheiro que sai do ralo e o cheiro dele, diz: “O cheiro é do ralo…”. Apesar de se sentir facinado com o cheiro do ralo ele tenta tampá-lo de todas as formas, até mesmo cimentando-o. Quanto mais ele tampa, mais o cheiro de merda o invade.
Assim, ele faz uma disjunção elegendo o ralo como o lugar do inferno e a bunda da moça da lanchonete como o paraiso. Diz: “Os buracos são portais do inferno. É por alí que eles ficam observando”; “O olho do dólar é o olho de Deus. Esse olho é do outro”. Mas, mais uma vez, esses lugares extremos estão muito próximos e ele se depara com essa ambivalência.
A perda, a libra de carne, como diz Lacan, o preço que todo sujeito deve pagar para se inscrever na norma fálica Lourenço não quer saber de pagar. Ele não quer se envolver afetivamente. Ele quer pagar um preço para ver a bunda ,e não, casar com a bunda. Trocar afeto, segundo ele, representa perder poder, sair do comando, do controle. Quando se deparou com a perda, a saida da moça da lanchonete, ele chega no seu estabelecimento e agride o cara que vendia relógios até a morte. Para lidar com perdas menos significativas,tenta construir um sentido culpabilizando alguém. Para ver a bunda, o preço a pagar é comer o lixo da comida da lanchonete. Daí, ele produz a merda que faz o ralo cheirar. Ou, “a culpa é do olho, ele dá azar!”
O isolamento afetivo aparece na troca de nomes da empregada, em só reconhecer a moça da lanchonete pela bunda e não perceber a mudança das moças pelo rosto, a maneira de falar da mãe, a forma como ele recebe as pessoas e compra seus objetos – não querendo saber das histórias; ao mesmo tempo, cria uma história sobre seu pai que nunca viu ou conheceu. Ele “monta” um pai com um olho, com uma perna e com uma história. É o pai Frankstein.
Finalmente, quando vai poder ver a bunda, tocar a bunda, esse objeto, até então, falicizado, Lourenço chora profundamente e diz: “Mais uma coisa a bunda se torna”. A bunda se torna mais um objeto sem valor afetivo que entra na sua série metonímica. Porém, me parece que nessa equação, algo alí se perde, alguma morte operou.
DISCUSSÃO:
Lourenço é o produto de uma “transa” única entre seus pais. Parece que ele se identifica ao objeto “resto”, a uma “merda”. O seu maior medo é que as pessoas descubram a sua origem, o seu cheiro. Dessa forma, como Lourenço poderia ter se servido desse pai, no sentido de fazer uma amarração menos precária?
Lourenço é o produto de uma “transa” única entre seus pais. Parece que ele se identifica ao objeto “resto”, a uma “merda”. O seu maior medo é que as pessoas descubram a sua origem, o seu cheiro. Dessa forma, como Lourenço poderia ter se servido desse pai, no sentido de fazer uma amarração menos precária?
Um comentário:
Patrícia, achei excelente o texto que você produziu! Em especial, achei muito legal a identificação que você apontou do Lourenço com o resto de uma única transa, um dejeto, a própria merda.
Deve ter sido uma discussão muito legal... uma pena eu não ter podido participar.
Um abraço!
Luigi
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