Seminário: “Estruturas clínicas - neurose obsessiva”
Ata de 19/10/2007
Por Rui Barbosa Júnior
Quando me procurou, Fábio já fizera análise por algum tempo. Na primeira sessão, afirmou ser uma pessoa muito dominadora. Sua maneira de se apresentar, cordial, educada e simpática, em nada revelava a tendência que anunciara. Paradoxalmente, às vezes tinha acessos de cólera em casa, por motivos banais.
Era gerente da filial de uma grande empresa. Como tal, tinha de tomar decisões relativas aos empregados, ação que executava sem grandes problemas, porque seguia fielmente a lei. Dizia-se justo nesses casos. Explicava: “No serviço que faço, as normas são claras, e as situações, repetitivas, então não é preciso pensar muito para resolver”. Empenhava-se por me demonstrar sua consideração para com os subordinados.
Gabava-se de sua simplicidade ao relatar comentários ouvidos a seu respeito, tais como: “O Dr. Fábio nem parece ser o chefe, pois conversa com todos; até conta piadas”. Um dia ele me disse: “Já reparei que, quando estou com outras pessoas, só faço aquilo que sei fazer muito bem; se tiver de competir, então eu não entro”. Usava roupas simples – até surradas, diria, - se considerarmos seu poder aquisitivo, pois detestava comprar roupas novas. Às vezes mostrava-se arrependido de ter adquirido um apartamento tão caro.
Numa viagem a serviço, envolveu-se com uma colega de outra filial e teve relações sexuais com ela uma única vez, de forma intempestiva. Apaixonou-se. Esse fato lhe acarretou grande dose de culpa, segundo afirmava. Em outros momentos, falava do assunto como se houvesse conquistado um troféu; começara a namorar a esposa quando muito jovem e até então só se relacionara com ela. No retorno da viagem, fez exames de sangue para verificar se estava contaminado por alguma doença.
Muito inteligente, discorria sobre filosofia e religião, temas que resolviam suas pendências nas noites de insônia. Dava-se o diagnóstico de “depressão”.
? ? ?
Não sei como a história de Fábio termina, pois ele já não é meu paciente há muito tempo. A lembrança de suas sessões, entretanto, remete ao que temos lido sobre a neurose obsessiva.
Se uma vez já se disse que a histérica é “bipolar”, em certo sentido o neurótico obsessivo também o é. Freud nos fala dos grupos de sintoma de tendências opostas: proibições, precauções e expiação, de um lado – satisfações substitutivas do outro. Seriam exemplos disso o “caso” fora do casamento versus a culpa e os exames posteriores? Teriam tais exames caráter anulatório?
Presente está a transgressão da Lei, em nome do controle onipresente do objeto – troféu conquistado, como se vê pelo tom de sua fala ao narrar a escapadela.
Mencionarei como formação reativa a cordialidade, às vezes excessiva, defesa contra a agressividade subjacente.
Fábio não competia, pois não podia perder. A perda conduziria a uma falha em sua imagem narcísica. Os comentários dos subordinados sobre sua simplicidade me fizeram lembrar de uma piadinha narrada em um texto sobre narcisismo: “O sujeito era tão humilde, tão humilde, que se gabava de ser o homem mais humilde do mundo”.
Onipotente, o pensamento de Fábio se valia de fundamentos religiosos e filosóficos.
A “depressão” possivelmente sinalizava a angústia diante do conflito entre o isso e o supereu despótico, que tentava mediar racionalmente. Sem contar os inevitáveis golpes narcísicos que a vida lhe proporcionava ...
Vale citar trecho do artigo A neurose obsessiva, de Lúcia Alves Mees[1]:
“Devido à regressão, o superego é severo, e a angústia se deve à hostilidade do mesmo. O eu teme o superego pelo castigo de castração que ele carrega. Pois, da mesma forma que o pai se tornou despersonalizado sob a forma do superego, o medo da castração se transformou em angústia social ou moral indefinida (Freud, 1926) (...) Para Lacan, o temor, do qual a angústia é sinal, é também o da castração, mas especificamente no que esta se relaciona com o desejo do Outro: ‘a função angustiante do desejo do Outro está ligada ao fato de que não se sabe qual objeto a se é para este desejo’.”.
Pergunto-me se não comprar roupas seria um sinal da avareza própria do “caráter anal”. Arrepender-se de ter gasto demais na compra do apartamento não apontaria no mesmo sentido? Ou decorreria esse fato de haver obtido o domínio do gozo, como enfatiza Joel Dor?
Com relação à regra fundamental, nada menos (ou mais?) fundamental. Para ele, explicar era essencial. Tinha resposta pra tudo. A partir do seu primeiro dito: racional (“Sou dominador” – eu confesso, eu cedo...), mas ambivalente: “Me aguarde”.
[1] Publicado na Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, nº 17, 1999.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário