José Maurício de Oliveira Neto – 23/08/2008
Ata: aula – 20/08/2008
Seminário: Estruturas Clínicas – Neurose
Psicanálise e Religião Coordenadora: Yolanda Mourão Meira
(Freud em “O Futuro de uma Ilusão”)
“A religião restringe esse jogo de escolha e adaptação (em busca da felicidade), desde que impõe igualmente a todos o seu próprio caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira delirante – maneira que pressupõe uma intimidação da inteligência. A esse preço, por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais.”
(Rudolf Alers em “The Successful Error – A Critical Study of Freudian Psychanalysis”)
“Ninguém que penetre no espírito da psicanálise e, ao mesmo tempo, seja inteiramente conhecedor da essência da fè sobrenatural, pode acreditar que estas duas coisas sejam compatíveis. Já várias vezes foi declarado, tanto por autores católicos como protestantes, que a psicanálise é, basicamente anticristã. Não há maneira de se sair deste dilema: ou se acredita em Cristo ou na psicanálise. Os próprios sequazes de Freud, não tem dúvidas a tal respeito. Para eles, a religião não significa mais do que uma manifestação particular do espírito humano, da mesma categoria que as práticas da magia, do totemismo ou da bruxaria. Sempre os psicanalistas procuraram provar que a religião é um produto das forças instintivas e da reação contra as mesmas.”
(Jacques Lacan - 29/10/1974 - Entrevista à imprensa no Centre Culturel Français – Roma)
Sra. Y - Por que ter empregado essa expressão do triunfo da religião sobre a psicanálise? O senhor está persuadido de que a religião triunfará?
J. Lacan - Sim, ela não triunfará somente sobre a psicanálise, ela triunfará sobre muitas outras coisas ainda. Nem mesmo se pode imaginar o quão poderosa é a religião. Recém falei um pouco do real. A religião vai ter também aqui muito mais razões para apaziguar os corações, se assim se pode dizer, porque o real, por menos que a ciência queira se envolver, a ciência de que falava há pouco, é novidade, a ciência, ela vai provocar um monte de rebuliço na vida de cada um. E a religião, sobretudo a verdadeira, tem recursos que nem se pode imaginar. Basta ver por enquanto como ela fervilha; é absolutamente fabuloso. Eles levaram tempo, mas de repente compreenderam qual era sua chance com a ciência. A ciência vai introduzir tais convulsões que será preciso que, a todas essas convulsões, eles dêem um sentido. E, no que diz respeito ao sentido, eles sabem o que fazem. São capazes de dar um sentido, pode-se dizer, realmente a qualquer coisa, um sentido à vida humana, por exemplo. São formados para isso. Desde o começo, tudo o que é religião consiste em dar um sentido às coisas que eram outrora as coisas naturais. Mas não é porque as coisas vão-se tornar menos naturais, graças ao real, não é por isso que se vai parar de produzir o sentido. E a religião vai dar um sentido às provas mais curiosas, aquelas sobre as quais justamente os próprios cientistas começam a ter uma pontinha de angústia; a religião vai encontrar para isso sentidos espantosos. Basta ver como as coisas funcionam agora. Eles estão se atualizando.
Escreve Lacan (RSI):
“Sem dúvida a adivinhação do inconsciente adverte o sujeito, desde muito cedo, de que, na impossibilidade de ser o falo que falta à mãe, resta-lhe a solução de ser a mulher que falta aos homens ou, ser a Mulher de Deus. A foraclusão do Nome-do-Pai tem como efeito fazer existir A Mulher. Deus é a mulher tornada toda. Dito que faz da mulher não–toda o Deus da castração. O que, porem, não faz de Deus um Todo não há Outro que responda como parceiro - sendo a necessidade da espécie humana que haja Outro do Outro. É aquele a que se chama geralmente Deus, mas que a analise revela que é simplesmente A mulher encarnação de um gozo infinito, uma Mulher completa, não marcada pela castração”
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Investigando raízes do comportamento humano, evidenciando a atitude emocional que o governa e atenta aos valores que lhe são inerentes, a psicanálise, sustenta uma visão sobre o fenômeno religioso como um fator de alienação e neurose que sendo pobre, doente, infantil, autoritário e vicioso impede o ser humano de viver e expressar-se em sua individualidade. Assim, tudo o que o leva a se conservar escravo, dependente ou incapaz de buscar a liberdade e a realização é neurótico e, como tal, tende ao empobrecimento, ao sofrimento e à capitulação.
Na ciência da psicanálise, a religião origina-se do sentimento de incapacidade do ser humano, confrontado com as forças da natureza e suas pulsões. Nesse sentido, Deus seria uma invenção do homem, e a origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas muito claras, até o sentimento de desamparo infantil. A imagem de Deus emerge exclusivamente da relação do menino com o pai sendo um precipitado dos conflitos edipinianos, com suas conseqüentes renúncias instintuais. E é no superego que vamos encontrar a imago de Deus, que substituiu e transformou a imago do pai. As idéias religiosas não constituem conseqüências de experiências ou resultados finais de pensamentos. São ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade.
Considerando o indiscutível posicionamento da psicanálise frente à mística religiosa, tento levantar aqui a questão da formação do psicanalista e seu posicionamento, onde muito mais que uma simples escuta e manejo da transferência, a clínica exige que o profissional tenha tido experiência anterior com sua própria análise e entenda bases fundamentais da teoria psicanalítica.
Será concebível praticar psicanálise quando discordamos de um ponto tão relevante da teoria freudiana?
Os deuses são felizes,
Vivem a vida calma das raízes.
Seus desejos o Fado não oprime,
Ou, oprimindo, redime
Com a vida imortal.
Não há
Sombras ou outros que os contristem.
E, além disto, não existem...
(Fernando Pessoa)
Há 70 anos, escreveu Freud:
O misticismo é a obscura autopercepção do reino anterior ao ego, do id.
Achados, Idéias, Problemas (Obras Completas de Sigmund Freud – Vol. XXIII)
22 de agosto de 1938 – publicado postumamente em 1941 - Sigmund Freud (1856-1939)
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