Ocorreu-me a lembrança, nesta semana, do filme Dom, que conta a história de Bento, carioca brasileiro que havia sido nomeado por seus pais em homenagem ao personagem homônimo de Dom Casmurro.
O filme se desenvolve em torno do relacionamento de Bento com Ana, uma paixão de infância que ele reencontra anos depois. Ana, mulher bonita e inteligente, é dançarina e quer ser atriz. O reencontro dos dois se dá por acaso. Eles haviam passado longos anos sem se verem depois que Bento se mudou com a família para São Paulo, ainda criança. Após o reencontro, o contato entre eles se torna muito intenso e ambos terminam os namoros que vinham vivendo até ali.
Algumas marcas do relacionamento Bento-Ana fizeram uma ponte aos textos freudianos, a saber:
- quando decidem se casar, Bento faz a Ana uma espécie de promessa, "fazê-la a mulher mais feliz do mundo". Ela muda com ele para São Paulo e abre mão de sua vida para acompanhá-lo. Ele não deixa que lhe falte nada e, no início, o casamento é repleto de felicidade para ambos.
- com o tempo, Ana passa a sentir falta de ter vida própria, de retomar seu projeto de dançarina e atriz. Bento se opõe continuamente. Eles têm um filho e Bento não quer que Ana volte a trabalhar. Não suporta vê-la desejar. Simplesmente não entende o que pode lhe faltar que a motive a buscar um trabalho, já que "ele lhe dá tudo". Racionaliza recorrendo à importância de a mãe estar próxima e cuidar de seu filho. Ana avança, hesitante.
- Miguel, amigo de ambos e padrinho de seu filho, é dono de uma agência de publicidade e, diante do crescente contato com Ana, incentiva-a a buscar aquilo que deseja e retomar sua vida profissional. Uma oportunidade surge e Miguel a convida para atuar em um filme que sua agência iria gravar. A aproximação de Ana e Miguel, aliada ao incentivo e suporte que ele lhe oferece, despertam o ciúmes e a desconfiança de Bento que desenvolve uma forte obsessão: a de que Ana e Miguel estão tendo ou tiveram um caso e que, talvez, o filho não seja dele mas sim de Miguel.
Notam-se no comportamente de Bento a dificuldade típica do neurótico obsessivo diante de sua mulher desejante e seu interesse em tê-la em casa como um belo troféu, sem vida própria, distante dos olhos de todos os outros homens. Como um "belo carro esporte", nas palavras de Freud.
Além disso, a existência para o obsessivo de uma terceira pessoa na relação, a presença do fantasma da traição e a obsessão que consome grandes quantidades de energia psíquica, também descritos por Freud, ganham mais uma encarnação nesta ficção de Moacyr Góes.
Bento, que havia crescido ouvindo a causa de sua nomeação referente ao personagem de Dom Casmurro, culmina então por reviver a história do mesmo personagem.
Um comentário:
Luigi
Super legal a leitura que faz do filme Dom relacionando-o aos textos de Freud relativo à relação do neurótico obsessivo com a mulher. Realmente, a mulher de Bento não pode desejar. Agora fica uma questão: o nome que é dado a ele, que vem do D. Casmuro, me faz questionar o sobre o desejo desses pais a seu respeito. Qual foi o lugar que ele é suposto ocupar? Instalado numa relação de triangulo edípico que diz respeito à relação com os pais. Como é uma ficção, e não vi o filme, não dá pra ir mais longe por ora. Podemos continuar conversando. Achei uma jóia esse seu achado. Abraços, Yolanda
Postar um comentário