em 02/07/2008 por Luigi
Aqui busco relatar um pouco da história de Davi, que após um episódio foi tomado por um pensamento obsessivo que durou alguns dias até uma conversa que tivemos. A situação de Davi, embora eu presuma ser típica da clínica nos dias atuais, me trouxe várias lembranças de nossos estudos sobre a neurose obsessiva e gostaria de compartilhá-las com vocês, a fim de que possamos debatê-las e de ouvir outras referências que possam lhes ocorrer.
Davi iniciou um longo namoro ainda na adolescência, namoro este que durou até o ano passado. Sempre teve muito desejo por outras mulheres e, vez por outra por um período ainda no início do relacionamento, permitiu-se algumas traições. Posteriormente, tomado pela culpa frente à grande entrega de sua namorada, tornou-se fiel. Esta fidelidade durou mais alguns anos, até que o desejo voltou a importuná-lo com grande força, ao ponto de ele se expressar frequentemente com amigos e cada vez mais aproximar-se de flertes arriscados.
Uma situação o levou por um período à permanência fora do país junto a um grupo de brasileiros, com retornos periódicos para sua casa. Lá, distante de sua vida e da inércia, permitiu-se ser ele mesmo, saia com frequência, se relacionava com outras pessoas, fazia amigos. Terminou por se envolver com uma outra brasileira que muito o atraia, com quem estabeleu um relacionamento.
Passou então a viver uma vida dupla: a outra, Suzana sabia da namorada Flávia e, embora ele evitasse a todo custo trazer à convivência dos dois qualquer referência a esta, Suzana aceitava bem a situação, demandando dele apenas que estivesse com ela quando assim fosse. Flávia de nada sabia. Este relacionamento duplo, durou alguns meses, onde por várias vezes ele dizia que "o perfeito seria ter as duas".
Progressivamente Suzana passou a se envolver e por várias vezes ele relatou tê-la percebido triste quando aparecia qualquer referência, ainda que remota, ao seu namoro. O próprio namoro com Flávia foi se degradando e a dúvida quanto a terminá-lo ou não o ocupou por cerca de dois ou três meses. Enfim decidiu terminar, após o grupo retornar para o Brasil. Já não havia sequer desejo por Flávia, e ele finalmente optou por libertá-la e ao mesmo tempo libertar-se.
Livre após o término do relacionamento, entregou-se a provar pelo mundo as oportunidades que teve com outras mulheres. Algum tempo depois, seu desejo por Suzana, com quem manteve um relacionamento, também começou a diminuir. Não queria comprometer-se e fantasiava (ou percebia?) suas demandas por um relacionamento com compromisso. Isso claramente o incomodava, gerava uma certa culpa, embora antes, quando ela era a outra, não havia qualquer culpa em estar com ela. Terminou seu relacionamento com Suzana, mas manteve-se sempre por perto, ainda que ela o pedisse para desaparecer. Sempre que ele se distanciava um pouco mais, era ela quem se aproximava. E assim eles se viam de vez em quando. Havia um certo medo de ficar sozinho.
Ao mesmo tempo, seu contato com a ex-namorada foi diminuindo e, em uma das vezes em que ele a procurou, ela esclareceu o que queria: "isso de ficarmos amigos não dá... melhor pararmos de nos falar". Ele sentiu a perda.
Esta perda trouxe a reboque novas dúvidas quanto à sua decisão. Ele manteve as dúvidas em suspenso por um tempo, mas passou então a sentir que havia perdido algo muito valioso com Flávia e decidiu tentar um resgate. Voltaram a se falar e a discutir um possível retorno. Sairam juntos e, ao deixá-la em casa, foi convidado pelos pais dela a entrar. Seguiu-se uma conversa de família onde eles expuseram o que pensavam, iniciando por dizer que a questão era só dos dois, Davi e Flávia, mas progredindo em seguida para uma cobrança um pouco disfarçada quanto ao futuro dos dois e um possível casamento. Posteriormente um deles chegou a dizer que, após o término do namoro, pensou e até mesmo planejou algum tipo de embargo no trabalho ou agressão física a Davi. Esta fala, escutada como uma ameaça velada, foi questionada por Davi: “o que você está querendo dizer?”. A resposta foi uma ameaça explícita "não tenho muito a perder... sou capaz de qualquer coisa". Deu-se início um pensamento obsessivo que durou por dias: tratava-se apenas de um blefe ou uma ameaça com plano e disposição de se concretizar, que o deixava correndo algum tipo de perigo? Até onde esta ameaça iria? Atingiria seu trabalho? Ele próprio fisicamente? De que maneira?
Foi neste ponto que Davi me procurou, três ou quatro dias depois da conversa com os pais de Flávia. Precisava se abrir e, enquanto falava da ameaça que recebeu, disse: "ele pode fazer qualquer coisa... é loucura mesmo... pode até mandar me matar". Era esse o medo por trás da obsessão, que cedeu à idéia de que os pais dela sabiam que Flávia gostava muito dele e que, sendo assim, não lhe fariam nenhum mal. A ameaça tinha então que ser um blefe, que tinha o provável objetivo de forçá-lo a uma decisão mais sólida. Estivesse ele certo de seu desejo, a ameaça de nada teria efeito, já que Davi poderia posicionar-se imediatamente, tranquilizando-os quanto a suas intenções de um futuro com Flávia. Na dúvida, no entanto, a ameaça o colocava frente a uma decisão de vida ou morte. Mas de onde vinha novamente esta dúvida, que parecia ter cedido frente à certeza de que algo muito valioso havia sido perdido?
Parecia não haver resposta daí em diante. A conversa caminhava para um fim, já que os pensamentos obsessivos haviam cedido. Ele teria que se haver com a decisão de voltar a relacionar-se ou não com Flávia, apesar da postura dela e de seus pais. Porém, neste ponto, já calmo e refeito, ele expõe então um outro ponto, segundo ele, o mais difícil de falar: a transa com Flávia na noite anterior à conversa com seus pais “não havia sido tão boa... havia sido algo morno, normal... não se comparava ao desejo e o prazer com Suzana”. Aí estava ela, a dúvida: talvez este algo tão valioso, o relacionamento com Flávia, somente o fosse como tal na fantasia. O objeto a, perdido para sempre, havia, por um momento, ganhado as feições de um relacionamento com Flávia. Um relacionamento perfeito que, no entanto, não existe e, se existiu, isto foi há muito tempo.
A conversa avançou e resgatou algumas significações importantes de conversas anteriores. Flávia era uma mulher perfeita para construir uma vida juntos, uma mulher para o futuro, embora seu presente com ela fosse excessivamente normal e apático. Uma mulher com quem ele teria segurança financeira, estabilidade, filhos, uma boa casa e uma vida confortável. Suzana, por outro lado, era um presente intenso, um objeto de seu desejo que, pelo menos sexualmente, dava a ele algo que nenhuma outra dava. Mas não era uma mulher para o futuro, embora ele não soubesse (ou não quisesse) dizer porquê.
Deste evento em diante, Davi decidiu-se: não queria Flávia. Não era mulher para o presente, era mulher para o futuro, mas sequer este futuro seria o mesmo já que incluia seus pais e sua postura desequilibrada. Conversou com ela e deram um ponto final à história. Pelo menos por enquanto.
Restaurou seu relacionamento com Suzana, sem um compromisso explícito, mas com uma convivência agradável, divertida, da qual ele muito gosta e disfruta. Pelo menos por enquanto, também.
Mais recentemente foi tomado novamente pela culpa após dormir com uma outra mulher. Passou o dia sentindo-se culpado por Suzana. Sabia que esta culpa não tinha sentido (ou melhor dito, há sentido, mas é outro), já que não havia compromisso explícito com ela. Mas precisava ouvir isso de alguém, tal como o Homem dos Ratos se abria com seu amigo em busca de uma opinião sobre o que sentia. E, após compartilhá-la e ouvir uma confirmação de que nela não havia fundamento, sentiu-se melhor.
Este caso de Davi me trouxe à mente as referências abaixo, estudadas em nosso seminário sobre a Neurose Obsessiva:
- a protelação, em especial no âmbito amoroso como indicou Freud, e a dificuldade em lidar com a perda. Esta vontade de deixar todas as portas abertas, de não se decidir, já que toda escolha implica em uma renúncia.
- a culpa do obsessivo, que é culpa de outra coisa, mas que volta e meia se debruça sobre uma situação qualquer e retorna para puní-lo.
- o isolamento, através da separação de duas vidas quase completamente desconectadas uma da outra, e do seu isolamento no mundo do amor, marcado nestas relações onde ele não se abre verdadeiramente com nenhuma delas.
- o desejo impossível do obsessivo, onde nenhuma das duas serve, uma é só presente, outra é só futuro.
- o contraste entre a "esposa perfeita", ótima futura mãe, parceira para a vida, e a outra, a puta, a que se envolve pelo prazer do sexo, e por quem o desejo pode aflorar em sua plenitude.
Embora não possa ser conclusivo, entendo que a estrutura de Davi é obsessiva. O que vocês acham? E o que acrescentariam?
E finalmente, o que dizer desta relação com o futuro? Planejado, fechado, sem buracos. Ancorado em fantasias de garantias, buscando calar os riscos e, principalmente, tapar esta castração que o tempo insiste em nos mostrar e com a qual o obsessivo mantém especial relação: a morte, inevitavelmente, chegará também para Davi.
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